Crônica 1 – 17 de março 2012

Primeiro encontro

Semente de bacupari-do-brejo

São Paulo, 17 de março 2012

Quintal do Sesc Ipiranga – 14h

Por Nayara Meneghelli*

“Para começar a falar sobre memória, preciso confessar algo que senti ainda hoje…  Caminhei por um trajeto que fez parte de minha vida durante alguns anos, passava pelo mesmo caminho todos os dias, com o mesmo objetivo. Hoje refiz aquela trajetória e percebi como o tempo transforma a tudo e a todos… Ruas, trânsito, faróis, calçadas, carros, pessoas, olhares… Aquela lembrança de quando caminhava por ali nas manhãs frias e encontrava com pessoas muito especiais.

Foi a época em que eu não era mais criança, mas ainda não chegava a ser uma adulta… estava descobrindo e vivendo momentos inesquecíveis da minha vida. O objetivo de caminhar por ali podia ser sempre o mesmo, mas as descobertas eram completamente diferentes a cada dia.

Hoje o objetivo mudou, o olhar mudou, a reflexão mudou… Surgiu um sentimento que a memória pode causar… a saudade. Aquela saudade boa, que o vento traz e as lembranças guardam no coração.

Lembranças de menina urbana… Foram os passos dados naquela época que ajudaram a transformar a menina em mulher. E agora, todas as vezes que eu caminhar por ali e observar cada detalhe, vou encaixar uma pecinha a mais em minha memória, em minha história.”

Nayara, 19 de março de 2012, tarde do último dia de verão, após caminhar por uma avenida que sempre fará parte de uma bela história.

Em nossa primeira conversação (versar ação) no dia 17 de março de 2012, ali estavam eu (Nayara Meneghelli), Rudinei Borges (nosso dramaturgo e idealizador do projeto), Alexandre Ganico  (nosso ator em plena formação, ao universo de Albert Camus) e João Silher (nosso ator/produtor e professor de inglês). Todos conheceram o projeto e escutaram com atenção cada detalhe de como e por que ele foi idealizado.

Alguns livros foram apresentados como mote de nossa pesquisa, autores e linhas que iremos nos guiar. Dentre eles:

a) “Memória e Sociedade – Lembranças de Velhos” – Ecléa Bosi – Companhia das Letras;

b)  “O Tempo Vivo da Memória – Ensaios de Psicologia Social” – Ecléa Bosi – Ateliê Editorial;

c) “A memória, a história, o esquecimento” – Paul Ricoeur – Editora Unicamp;

d)  “História Falada – Memória, rede e mudança social” – SESC SP;

e) “O que é – Método Paulo Freire” – Carlos Rodrigues Brandão – Coleção Primeiros Passos – Nova Cultural Brasiliense;

f) “Missão de Pesquisas Folclóricas – Cadernetas de Campo” – Mário de Andrade.

Outras fontes de pesquisa também foram citadas, como o Museu da Pessoa e o NEHO – Núcleo de Estudo de História Oral da USP.

Nossos encontros acontecerão aos sábados, das 14h às 18h.

No decorrer de nossa conversa, surgiram algumas questões:

Alexandre – “Como escolheremos os trabalhadores para a conversação?”

João – “A quem abordar e como abordar?”

Rudinei – “Com quantos trabalhadores iremos conversar?”

Rudinei – “O que será perguntado e o que não será perguntado?”

Em seguida, encomendamos nossos primeiros passos para a próxima semana…
Nossos canhenhos… a criação de cada um deles. Em nosso próximo encontro, levaremos cadernos e materiais que tenham a ver com toda a nossa conversa e tudo o que estiver relacionado à pesquisa que trilharemos.

E a partir da leitura do artigo “Memória e sociedade: ciência poética e referência de humanismo” faremos um anti-seminário. Ou seja, primeiro resumiremos a parte estipulada à cada um e depois uma ação lúdica ou uma reflexão para partilhar com os outros.

Dividimos da seguinte forma:

Páginas 5 e 6 – João

Páginas 7 e 8 – Alexandre

Páginas 9 e 10 – Nayara

Páginas 11 e 12 – Rudinei

Também iniciaremos a leitura de uma parte do texto de Ecléa Bosi.

A semente foi plantada… agora é cuidar, regar, afagar a terra e dar muito amor! Confesso que voltei para casa com milhares de pensamentos e primeiras sensações. Junto disso, voltei lendo “Chão de Terra Batida”, livro de Rudinei Borges, e como eu disse assim que terminei de ler, eis o primeiro exemplo de memória após nossa conversa… Comecemos a escrever a história do Projeto Agruras!

* Nayara Meneghelli é atriz e oralista do Núcleo Macabéa.