A mulher dos fios de barbante

Por Nayara Meneghelli

(Texto elaborado a partir do primeiro exercício cênico do projeto Agruras orientado pelo dramaturgo Rudinei Borges) 

“Pessoas, rostos, semblantes…
Passos, cheiros, a espera…
Vai e vem, vou e volto, vão e nunca mais aparecem…
Não sou a mesma pessoa… já não me olham como antes…
Sou agora diferente do comum, do que os olhares se habituaram a enxergar…
Pobres olhares…
Olhares sofridos, costas envergadas, peles queimadas pelo sol e sujas pela poluição desse enorme cenário chamado cidade…
Cidade alta, colorida não apenas por cores, mas também por sensações e sentimentos…
Cidade texturizada…
Silencio para escutar o que todos os seus sons podem dizer…
Poluição sonora…
Mas é aos poucos que começo a escutar o som que verdadeiramente me interessa, que sobressai em meio ao caos…
Uma suave melodia de uma caixinha de música…
Só ela se faz presente…
O homem de chapéu e mala nas mãos sorri e me diz algo…
Escuto e espero…
Espero como sempre…
Como há anos e anos… como naquele comboio que eu insisti em entrar e nunca mais saí…
É lá que passo a vida à acordar, dormir, acordar, dormir…
Dormir ao som dessa suave melodia que escuto dentro de mim…
O homem de chapéu e mala nas mãos me pergunta sobre coisas que eu já não lembro mais…
Busco as respostas…
Eu não me lembro, mas ainda não esqueci de tudo…
Eu ainda tenho medo…
O mesmo medo do homem das cavernas… de quando eu era criança e apagavam a luz…
Me deixavam na solidão do escuro…
Solidão…
Vamos?
Vamos comigo nesse comboio dormir longos anos?
Enquanto isso eu espero…
A melodia da caixinha de música me faz companhia…
O que será que tem lá dentro?
É uma rosa que tem aí, não é?
É uma rosa, não é?
Não é?
Não é uma rosa?
Não, não é uma rosa…
A melodia continua e eu não consigo me lembrar…
Eu tento me lembrar enquanto espero… enquanto meu pai tece o algodão todas as manhãs…
Eu careço apenas esperar…
Apenas esperar…”

Vivência Macabéa – Vale do Anhagabaú – São Paulo
Nayara Meneghelli – 7 de abril de 2012 – Tarde de outono