Crônica 3 – 31 de março 2012

Terceiro encontro

São Paulo, 31 de março 2012

Quintal do Sesc Ipiranga – 14h

por Rudinei Borges

Sob as árvores e os cantos do pássaro do quintal do Sesc Ipiranga, bairro antigo da cidade de São Paulo, iniciamos o terceiro encontro do Núcleo Macabéa. Estávamos sentados diante de uma mesa de mármore eu, Rudinei Borges, e os atores Alexandre Ganico e Nayara Meneghelli. Iniciamos a nossa conversação às 14h em ponto.

Na primeira parte do encontro, conversamos sobre propostas de uma organização administrativa e de produção do Núcleo. Sugiram questões relacionadas à sustentação do grupo, as ações artísticas na comunidade Boqueirão e o processo de montagem da peça “Agruras”. Decidimos estudar os editais públicos voltados às artes cênicas e modos de captação de recursos para o grupo, além de outras formas de patrocínio.

Na segunda parte, tomamos café, pois a tarde estava um pouco fria e o ambiente, apesar de uma peça encenada para crianças no Sesc, permanecia circunspecto e o céu um pouco cinza. Neste momento de café, realizamos um anti-seminário a partir do artigo “Memória e sociedade”: ciência poética e referência de humanismo de Paulo de Salles Oliveira.

O artigo apresenta um conjunto articulado de reflexões a respeito do livro Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos, de Ecléa Bosi, aqui considerado como obra-prima da psicologia social e das ciências humanas. Procura destacar as originalidades de natureza teórico-metodológica do texto, a começar por uma composição singular que incorpora poesia na construção científica, passando por uma redefinição das relações entre sujeito e objeto do conhecimento, ao desenvolver a perspectiva de alternância da condição entre ambos, no desdobramento da pesquisa. Mostra, também, como o estudo de Ecléa Bosi se fundamenta em estreitos vínculos entre a pesquisadora e os velhos pesquisados, de modo a se formar entre eles uma comunidade de destino. A discussão possibilitou maior entendimento sobre como a questão da memória aparece no livro de Ecléa Bosi, além de lançar luzes para a pesquisa do Núcleo Macabéa.

Na última parte do encontro, lancei a proposta de um exercício cênico a partir das discussões sobre memória realizada nestes três encontros. A proposta é de no próximo sábado, dia 7 de abril, irmos para o centro da cidade. Diante do desafio urbano, comporemos figuras e não personagens. Vamos trabalhar com a ideia de fragmento. Ou seja, compor esta figura mediante o olhar para referências diversas como um breve texto de minha autoria, chamado “Desamparo”, as conversações sobre Memória, o artigo de Paulo de Salles Oliveira sobre o livro de Ecléa Bosi e dois filmes de Glauber Rocha: “Terra em transe” e “Deus e o diabo na terra do sol”.

Neste sentido, o maior interesse é adentrar o fragmento sem a necessidade de entender como ele se envolve com os outros fragmentos. Com isso, compor uma figura que terá um nome. Sugeri nomes de figuras, como: O homem sem foices, O menino perdido, Aurora sozinha.

Terminamos o encontro com um abraço forte. Depois partimos para Pasárgada.

Rudinei Borges é diretor, dramaturgo e ator do Núcleo Macabéa.