Crônica 5 – 14 de abril 2012

Quinto encontro

Caminho para o Boqueirão

São Paulo, 14 de abril 2012

Comunidade Boqueirão – 14h

Por Rudinei Borges

O quinto encontro do Projeto Agruras do Núcleo Macabéa foi marcado por um itinerário rumo à comunidade Boqueirão, zona sul da cidade de São Paulo, distrito do Ipiranga. Às 14h do dia 14 de abril, sábado, eu esperava os integrantes do grupo na Estação de Metrô Alto do Ipiranga. Logo encontrei Maria Vitória, estudante de artes cênicas que vai estagiar no Núcleo durante o processo de tessitura do Projeto Agruras. Depois chegaram os atores Alexandre Ganico e Nayara Meneghelli. O ator João Silher chegou tempos depois quando já estávamos na comunidade. Vestidos com uma camisa branca onde se via uma estrela amarela e o nome Macabéa, obra do desenhista Guilherme Kramer, fomos para a comunidade Boqueirão no ônibus Jardim Maristela. Vinte minutos depois estávamos numa praça próxima à comunidade. Sentamos numa pequena mesa e conversamos a respeito dos nossos objetivos naquela tarde: visitar os jovens que desejam participar do Núcleo Macabéa. A maioria participou de uma peça natalina em 2011. Também conversamos sobre nossa grande peleja: encontrar um espaço para encontros, oficinas e ensaios. Todos receberam uma pasta com o livro Manual de História Oral do pesquisador José Carlos Sebe Bom Meihy que será estudado nos próximos encontros.

Nossa primeira parada foi a casa do jovem Raul Lucas da Silva. Ele mora com os pais que são proprietários de uma mercearia. Lucas nos recebeu com um riso e logo mostrou muita animação para nos acompanhar nesta visita ao Boqueirão. Adentramos as vielas da comunidade, sentimos a vida e as dificuldades dos moradores. Lucas nos contou sobre as constantes ameaças de despejos. Também nos disse que os sonhos dos moradores são estes: que todos tenham os documentos de posse de suas casas e a comunidade seja urbanizada.

Fomos à casa do jovem Ricardo Gonçalves de Araujo que nos convidou a conversar. Comentamos sobre os trabalhos e projetos do Núcleo. Ele se mostrou disposto a participar e indicou outros jovens, como Eduardo da Silva e Jéssica Helena da Silva Oliveira.

Caminhamos mais tarde até um centro comunitário coordenado pelas Irmãs Dominicanas. Lá conversamos com os jovens Joselito Miranda da Silva Filho, Sérgio Gonçalves da Silva e Tamires Rodrigues Vileriano. Todos ficaram animados com o projeto. No total, verificamos que sete jovens que residem na comunidade Boqueirão querem participar efetivamente de nossos projetos teatrais. Ainda vamos conversar com mais um jovem, o Anderson, que também manifestou entusiasmo com o projeto.

Uma das falas mais tocantes que me recordo foi do jovem Raul Lucas que contou que todos os sonhos dele estavam se realizando e que ele sempre quis integrar um grupo de teatro. Aliás, foi Lucas que nos guiou, lá pelas 18h, quando já estava escurecendo, a um local da comunidade onde as famílias foram despejadas. Só restavam, à beira de um esgoto, os escombros, estilhaços de moradias. Ninguém sabe para onde foram as famílias e em que condições vivem hoje. Lucas também nos contou que a impressão de todos é que estrategicamente estão despejando as famílias aos poucos, assim evitam mobilização dos moradores.

Esta visita à comunidade Boqueirão nos fez perceber quanto é dura as mazelas da exclusão, que a vida naquela localidade não é fácil e que o poder público tem virado as costas para o povo de modo vergonhoso. Percebemos que um projeto de artes cênicas naquela comunidade precisa levar em conta a realidade excludente. Precisamos trabalhar com a nossa capacidade de indignação e utopia. Porém o encontro foi motivador. Saímos todos com a certeza de que seguimos o caminho certo: edificar um projeto teatral a partir de memórias e narrativas autobiográficas de moradores da comunidade Boqueirão.

Para o encontro do sábado seguinte, 21 de março, marcamos o nosso primeiro exercício de História Oral. Vamos entrevistar uma antiga moradora da comunidade.

Rudinei Borges é diretor, ator e dramaturgo do Núcleo Macabéa