Crônica n. 4 – 7 de abril 2012

Quarto encontro

São Paulo, 7 de abril 2012

Vale do Anhangabaú, centro velho da cidade de São Paulo – 14h

Por Maria Vitória

Esse foi meu primeiro encontro no Núcleo Macabéa e agradeço demais a oportunidade e a forma como o grupo me acolheu. Conheci Rudinei, Nayara e João, precisamente nessa ordem, mais três seres que escrevem sua própria história, e agora permitem que ela cruze com a minha. Por causa disso eu penso em quantas histórias, durante esse trabalho, vão se emaranhar nas nossas.

Cada herói carrega a sua jornada, e isso me faz refletir sobre o que é a memória, objeto das nossas pesquisas, essa incrível capacidade de evocar aquilo que já passou.  Eu penso na minha história e nas coisas que fizeram parte de mim, cada tijolo que construiu a criatura que sou hoje.

Subimos a Ladeira da Memória, e o lugar escolhido foi o Vale do Anhangabaú, entre duas estátuas que representam a música e a poesia. Inquieta-me quanta coisa aquele lugar guarda, porque tudo ali me faz pensar no passado, aquele lugar que um dia foi mata, foi fazenda, ponto de suicidas e vendedores de chá, hoje é miolo, centro velho da maior metrópole do Brasil, e quanta coisa o Antônio Carlos já viu dali de cima. Além da alma do escultor e dos traços do maestro, aquelas estátuas arrecadam um pouco da alma de tudo o que passa por ali.

E foi nesse cenário entre fotógrafos, curiosos, interessados, namorados e moradores de rua que começamos nosso trabalho, o primeiro exercício cênico do Projeto Agruras. Eu estava no papel de observadora, através do qual tive uma percepção primária deliciosamente confusa, e foi essa confusão, a vontade e a curiosidade, mãe de Maria Vitória, que fez com que eu me envolvesse tanto quanto os atores.

Expus as minhas impressões de tudo aquilo que eu havia visto, as pequenas histórias se formando, criaturas nascendo em plena praça. Conversamos muito, e devido ao grande movimento de pessoas e formigas, sempre mudando de lugar. Do Vale do Anhangabaú até a Augusta conversamos sobre o jogo dramático, sobre o processo, a experiência, sobre dinheiro, sobre a falta dele, sobre o começo, começar o grupo, planos, projetos, planilhas, dentre outras coisas que eu quero poder entender melhor com o tempo.

No próximo encontro visitaremos os moradores da Comunidade Boqueirão, o que aguardo ansiosamente.

Um parto é um parto e é sempre difícil, mas transforma e enriquece a vida dos geradores. E finalizo meu relato diário com a certeza de que me sinto extremamente honrada em participar desse processo, e presenciar o nascimento não de um único indivíduo, mas um coletivo deles, escrevendo todas as suas histórias em uma única.

Maria Vitória é atriz e estagiária do Núcleo Macabéa.