Desamparo – esboço n. 1

Chegar perto do olhar sôfrego de Telêmaco

O andarilho leva consigo uma caixinha de música.

a caixa onde guardamos tudo e nada é a caixa de pandora: a rosa de Hiroshima: uma caixinha de música: a bailarina desvela o corpo: dança sobre a tessitura da terra: a fresta na parede de madeira acocora a guerra: os canhões boêmios: o inverno: onde fica o Japão, o Amazonas, a Turquia, a Espanha, o Pará? Onde fica Itaituba, Itabira, Parságada, New Orleans, Macondo?: vamos num comboio dormir longos anos numa ponte entre Tóquio e São Petersburgo: vamos dormir acordar dormir acordar dormir acordar: amanhã nosso pai entrará num navio e partirá para o outro lado do mundo: onde é verão (sempre) e o calor corrói as vísceras: vamos e depois vamos e depois vamos: num comboio: um cowboy: um meteorito: nossa mãe estenderá o lenço: nossa mãe gritará na vante do navio: adeus, Kazuo: adeus,  Silher, meu caro: adeus, Joseph: adeus, minha Alexandria partida: nunca chegaremos em Ítaca: a cólera: cresce a cólera: e os olhos enchem d’água: não sei: enquanto cresce Telêmaco…: todas as cidades são matadouros, disse nossa mãe uma vez: todas as cidades inundam a carne, a flâmula: todas as cidades…: a ilha Ogígia: o porto de Santarém: todas as cidades…: a ilha de Marajó: meu pai!: onde andará o teu pai?: uma noite, o fogo sobre terras: o fogo sobre torres: o fogo sobre  mares: uma noite, partimos: uma noite, chegamos: nesta terra plantarão café e tomate e pimenta-do-reino: nosso pai comia aipim todas as manhãs: nossa mãe não deve perder-se no cortejo: nossa mãe carece esperar-esperar-esperar: mais um dia: uma hora: um instante: volta, pai!: vem lutar com os samurais de Okinawa: quando partimos, o esôfago segue viagem gruindo dentro do corpo: o esôfago: uma puta: os teus seios: os teus lábios revestidos por epitélio estratificado pavimentoso não queratinizado e/ou parcialmente queratinizado: por onde andará oteupai-oteupai?: por onde andará atuamãe-atuamãe?: quem são aqueles que cortejam atuamãe-atuamãe?

(Rudinei Borges)

O texto acima foi umas das referências para o primeiro experimento cênico  do Projeto Agruras realizado no centro velho de São Paulo.