projeto Agruras – canhenho 8

Louvor do esquecimento 

por Bertold Brecht 

 

Bom é o esquecimento.

Senão como é que

O filho deixaria a mãe que o amamentou?

Que lhe deu a força dos membros e

O retém para os experimentar.

 

Ou como havia o discípulo de abandonar o mestre

Que lhe deu o saber?

Quando o saber está dado

O discípulo tem de se pôr a caminho.

 

Na velha casa

Entram os novos moradores.

Se os que a construíram ainda lá estivessem

A casa seria pequena de mais.

 

O fogão aquece. O oleiro que o fez

Já ninguém o conhece. O lavrador

Não reconhece a broa de pão.

 

Como se levantaria, sem o esquecimento

Da noite que apaga os rastos, o homem de manhã?

Como é que o que foi espancado seis vezes

Se ergueria do chão à sétima

Pra lavrar o pedregal, pra voar

Ao céu perigoso?

 

A fraqueza da memória dá

Fortaleza aos homens.

 

Bertold Brecht, do livro Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas. Tradução de Paulo Quintela.

 

* O poema foi sugerido pela atriz Nayara Meneghelli.