Crônica n. 6 – 21 de abril 2012

Quinto encontro

São Paulo, 21 de abril 2012

Comunidade Boqueirão

Casa de Sônia Sônia da Cruz

Por João Silher

Vovó costumava dizer que em dias cinza e frios ninguém habita o mundo.

No dia 21 de abril de 2012, dia cinza e frio, foi o 6° encontro do Projeto Agruras do Núcleo Macabéa. Alexandre Ganico, Nayara Meneghelli, Rudinei Borges e eu partimos em direção a Comunidade do Boqueirão. Lá juntou-se a nós Raul Lucas.

Os pés pisavam o chão e guiavam-nos à casa de uma senhora. Seria nosso primeiro contato com a história de alguém da comunidade. Fomo recebidos com um sorriso, nos sentamos em banquinhos da sala pequena de teto baixo. Inicialmente a mulher não mostrou-se muito à vontade. Mas na medida em que falava de si, tomou conhecimento da obra-prima… sua vida. Olhávamos para ela sem piscar os olhos e descobrimos que quando alguém relembra a própria história passa a habitar o estado do sublime.

Uma mulher que não nascera, mas transferiu-se para uma comunidade carente devido as transformações de seu trajeto. A estrada a havia enviado para onde ela não esperava. Surgiram naturalmente perguntas e respostas, estórias de assassinatos, mas também da criança que colhia madeira para fazer lenha e cercas para o quintal de pés de uva altos. Passaram novamente por seus olhos as imagens das pessoas se jogando de um prédio em chamas e sua tia a gritar por ela ter roubado uma fruta para chupar!

A conversa durou quase 1 hora e 30minutos.

Posteriormente nos foi oferecido café. Um café tão quente quanto o abraço de despedida.

Após deixarmos a casa, fomos até a praça para conversar sobre o que havia passado, expor nossas impressões e ouvir algo lindo que Nayara tinha escrito. Falamos também sobre nosso próximo encontro.

Fui embora pensando naquela mulher.

Texto escrito no dia 22 de abril de 2012 – Manhã fria e chuvosa de domingo.

João Silher é ator, produtor e oralista do Núcleo Macabéa