Rapto

A mulher diz ao menino.

o rio o rapto um dia pela manhã teus seios o meu cigarro gosto de café na boca gosto do teu hálito seco espere por favor e vá se puder vá para perto do mar e volte co’olhos do teupai volte cedo e durma e beba a tua cachaça a tua garapa só posso tecer só posso armar ruas suspensas barquinhos de papel e o sol de giz branco o cais de giz branco o céu de giz branco oteupai de giz branco não sou atuamãe oteudia-cego oteudia-cão meninos vão correr pela areia nus pela areia e ondas e sal e o sol branco de giz meninos negros de Henri Cartier-Bresson meninos-meninos do teu tempo-luz do teu tempo-cal o menino e um bambolê erês-erês do teu tempo-cruz do teu tempo-réu quando teupai voltar vamos rezar juntos no alpendre vamos dormir juntos no areial vamos correr juntos pela estepe vamos plantar mudas de jacintos um beija-flor no altar dos erês uma menininha vestida de anjo na procissão de Santa Ana uma menininha para São Joaquim vamos descer a Rua Victor Campos vestidos de arlequim vamos em passos céleres pela Avenida Getúlio Vargas co’uma dama-da-noite entre os dedos na mão co’um rosário entre os dedos na mão e as luzinhas coloridas no alto da catedral e oteupai num andor oteupai o meu santo oteupai o meu pastor oteupai a minha gira o teupai meu exú oteupai meu caminho oteupai no arrozal oteupai co’um jamanxin nas costas oteupai livre sem algemas oteupai no cais na Vila Caçula oteupai pelo Jurunas um folião oteupai um romeiro barcos n’olhos doteupai casinhas de madeira e a corda e o círio e a Virgenzinha de Nazaré e Belém e o Rio Jordão espere o rio o rapto um dia pela manhã teus seios o meu cigarro gosto de café na boca gosto do teu hálito seco espere por favor e vá se puder vá para perto do mar e volte co’olhos do teupai co’o coração da tuamãe não esqueça de voltar co’o coração da tuamãe

(Rudinei Borges)