Núcleo Macabéa no II Festex

O Núcleo Macabéa participa do II Festex – Festival de Cenas Extraordinárias do Brasil em São Caetano do Sul no dia 25 de maio de 2013. O festival é realizado pelo Teatro Real. O Núcleo apresenta cena que integra a pesquisa atual do grupo: “Agruras: ensaio sobre o desamparo” com interpretação de Nayara Meneghelli, dramaturgia e direção de Rudinei Borges, colaboração de Lukas Torres e Alexandre Ganico. 

Texto de Rudinei Borges no Festex 2013

– Os degredados filhos de Eva – ( por rudinei Borges) 

Eva, diante da terra ceifada, segura uma arma de fogo. Os outros andarilhos estão ao longe.Eva – quem compartilha o silêncio: o silêncio que compartilho: sabe o que reside nos olhos de aço da locomotiva: sabe o que ressente as cicatrizes da terra: a aridez: a nevasca: os meus lábios: o meu sexo: rebentos lavrados no mundo: você não sabe que eles adentram a alvorada em direção aos campos com candeeiros: vão nus/descalços pela lavoura: vazio: vazio: vazio: vazio: vazio: vazio: vazio: vazio: vazio: vazio: vazio: vazio: vazio: vazio: vazio: vazio: vazio: vazio: vazio: vazio: vazio: pedi: sempre-sempre: que esperassem: olhai os lírios: as papoulas vermelhas: os jacintos: todo o deserto é agrura: uma vez num vagão: sempre-um-vagão: éramos tantos-tantos: o mofo insuportável: rugas cresciam no rosto: a boca aberta: a pele brancacenta: o silêncio: não restava nenhum suspiro: eu disse: repito: disse a todos: àquela mulher acocorada no piso do vagão: temos um cadáver aqui: um morto: o teu pai está morto: aí: diante de ti: com olhos vívidos: como se olhasse as frestas da locomotiva e contemplasse as plantações pela estrada: a morte: entre nós: no meu colo: como uma criança faminta nos meus seios: meus meninos: levaram meus filhos: dois meninos: uma menina de um três meses: ele reagiu: gritou: acocorou-se na terra seca: assassino: gritou: assassino: gritou: assassino: arrastaram-no entre arames: sobre a piçarra: ele não chorou: riu-se da estupidez: vão matá-lo: um homem sobre o telhado atirou: nas pernas: nos braços: estilhaçou as mãos: ele não tinha mais mãos: para que serviria àquela altura as mãos?: não sei: eles não sabem: não permitem dizer: meus meninos: estão vivos: minha casa: está em pé: numa terra que não é minha: os canalhas: os carvões: pedi: sempre-sempre: que esperassem: levaram num comboio a menina de três meses: os canhões arrasaram o plantio: um homem/uma mulher não é nada quando furtam os filhos: a terra: a casa: as sementes de aurora armazenadas no celeiro: por isso canto: canto: canto: canto: canto: canto: canto: canto: canto: canto: sempre-sempre: agora: amanhã: minha reza sem versos: na colina: o outro lado do deserto: um muralha: uma roda girava: era o pai numa cavalgadura: um ferreiro: um vendedor de ossos: um estrangeiro co’uma caixa de madeira: um menino ferido: o estandarte sem cor: escombros: não gosto desta palavra: escombros: não gosto deste cheiro: você sente?: este silêncio: esta penumbra: esta multidão de andarilhos que me olha calada: você sente?: o que eu fiz? (Ri longamente): matei: (Põe a arma entre as mãos) tenho uma arma: sou uma assassina: a escória famigerada da face da terra: (Atira a arma sobre a terra) sempre-sempre disse: falar neste tempo é uma merda: a mesmice: tudo anda tão parecido: os mecenas: os mascates: os atiradores: os pássaros: os anjos caídos: a atriz diante da coivara: profeta de Nazara: profeta de Jeruza: sempre-sempre disse: voltaremos hoje para casa: vamos num comboio dormir longos anos numa ponte entre Tóquio e São Petersburgo: vamos dormir acordar dormir acordar dormir acordar: amanhã nosso pai entrará num navio e partirá para o outro lado do mundo: onde é verão (sempre) e o calor corrói as vísceras: vamos e depois vamos e depois vamos: num comboio: um cowboy: um meteorito: nossa mãe estenderá o lenço: nossa mãe gritará na vante do navio: adeus, Kazuo: adeus, meu caro: adeus, Joseph: adeus, minha Alexandria partida: nunca chegaremos a Ítaca: a cólera: cresce a cólera: e os olhos enchem d’água: não sei: enquanto crescem os meninos: todas as cidades são matadouros, disse nossa mãe uma vez: todas as cidades inundam a carne, a flâmula: todas as cidades…: a ilha Ogígia: meu pai!: onde andará o-teu-pai?: uma noite, o fogo sobre terras: o fogo sobre torres: o fogo sobre mares: uma noite, partimos: uma noite, chegamos: nesta terra plantarão café e tomate e pimenta-do-reino: nosso pai comia aipim todas as manhãs: nossa mãe deve perder-se no cortejo: nossa mãe carece esperar-esperar-esperar: mais um dia: uma hora: um instante: (Grita) pai!: vem lutar com os samurais de Okinawa: quando partimos, o esôfago segue viagem gruindo dentro do corpo: o esôfago: uma puta: os teus seios: os teus lábios revestidos por epitélio estratificado pavimentoso não queratinizado e/ou parcialmente queratinizado: por onde andará oteupai-oteupai?: por onde andará atuamãe-atuamãe?: quem são aqueles que cortejam atuamãe-atuamãe?: meus-meninos: meus-meninos: onde estão meus-meninos?: