Entre estrangeiros: a morte em Camus

| Por Sidnei Ferreira de Vares |

O livro de Albert Camus, “O Estrangeiro” (L’étranger, publicado em 1942), divide-se em duas partes. Na primeira parte Meursault, personagem central, é um homem de vida simples e hábitos rotineiros, que vive solitário num pequeno apartamento e trabalha num escritório. Almoça no restaurante de Celeste todos os dias. Sua vida resume-se a ir de casa para o trabalho e vice-versa (uma “jaula de ferro” como diria Weber). Até que um acontecimento quebrará sua rotina. Recebe a notícia, por meio de um telegrama, da morte de sua mãe que, há três anos, vive num asilo em Marengo, cidade próxima a sua, Argel. Logo no primeiro parágrafo do livro, Meursault deixa transparecer uma característica importante da personagem, a saber, sua indiferença diante da vida, quando afirma: “Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem”. Notem que a fato de não saber ao certo o dia da morte de sua mãe é, na verdade, um mote para se pensar que diferença isso faz a alguém que já morreu. Ter morrido ontem ou hoje é apenas um detalhe fatídico e irrelevante.

Aliás, a questão da morte perpassa o livro todo. Podemos afirmar que a morte é um dos temas centrais da obra e há, pelo menos, quatro perspectivas distintas no sentido de interpretá-la. Num primeiro momento, a que corresponde à morte da mãe, vê-se claramente uma situação onde a morte é entendida de um ponto de vista “natural”, pois, esta é uma senhora de idade avançada. Biologicamente é aceitável essa condição de morte, visto que a eternidade não existe para um homem. Não por acaso, a morte nessa circunstância é aceitável. Embora Meursault não saiba a idade certa da mãe, exalta a idade avançada.

A pequena viagem que faz à Marengo, com vistas a velar o corpo da mãe, é marcada por certa indiferença frente ao ritual do velório organizado em moldes religiosos, o que chama a atenção de Meursault, visto que sua mãe nunca foi religiosa. Ele fuma um cigarro na frente do caixão, o que será visto como um ato desrespeitoso (como se qualquer outra ação, socialmente viável, fosse trazê-la de volta). O momento no qual os colegas de asilo, todos velhos, vêm prestar as últimas homenagens à companheira, é uma das passagens mais provocativas. O caixão do meio da sala, cercado por velhos, desperta um sentimento de inevitabilidade, afinal, todos ali sabem que aquele é um fim próximo, até por conta do definhamento natural do corpo. A morte, portanto, é o que os igualam. Sem derramar uma lágrima sequer, Meursault acompanha o enterro, entediado e cansado, desejando retornar rapidamente à Argel.

Em seu retorno, porém, Meursault envolve-se num relacionamento com Marie, ex-funcionária do escritório onde trabalha, após ter passado o sábado imediatamente posterior a morte da mãe na praia. Na segunda-feira, Meursault volta à rotina, a “normalidade”. Assim, como nosso protagonista, outros personagens vivem o peso da mesmice: o velho Salamano que, por exemplo, vive com um cachorro há anos, realizando os mesmos passeios e terminando por ficar parecido com o animal, cujo desaparecimento o leva a uma profunda tristeza. 

A vida de Meursault é alterada quando os laços de amizade com Raymond, um vizinho, provavelmente um cafetão, aprofundam-se.  Meursault, a pedido de Raymond, o ajuda a escrever uma carta a uma amante com quem se desentendeu; e o faz. O vínculo, portanto, está estabelecido (ironicamente por meio da escrita). Certa noite, Raymond recebe a sua amante e a agride em seu apartamento. Meursault vai a delegacia testemunhar a favor de Raymond. Poucos dias depois, Meursault é convidado por Raymond para ir à casa de praia de um amigo. Meursault aceita e leva Marie. Contudo, Raymond confessa ao amigo que está sendo seguido por um grupo de árabes, sendo que um destes é irmão de sua antiga amante.

Já na praia, Raymond, Meursault e Masson (o dono da casa), ao caminharem na praia após o almoço, deparam-se com os árabes e uma briga acontece. Pouco depois, Meursault e Raymond retornam ao lugar da briga e encontram os árabes no mesmo lugar, contudo, agora, Meursault, segurando a arma de Raymond, dispara cinco vezes contra o árabe (irmão da amante de Raymond). A morte do árabe é, aqui, abordada enquanto contingência, dada a circunstancialidade em que ocorre.

Neste instante começa a segunda parte do livro, referente à prisão e ao julgamento de Meursault, que é também a parte mais densa do texto. Trata-se do momento onde o protagonista toma consciência de sua condição existencial. A solidão da prisão e, sobretudo, o julgamento o levam rapidamente a verificar que não é o dono de sua própria vida. Nesse sentido, todo processo de Meursault, a respeito da morte do árabe, é emblemático, retraduzindo a crítica de Camus à sociedade. Em pelo menos duas ocasiões nessa segunda parte a questão da religião ganha centralidade, a saber, quando o juiz o interpela, e quando o capelão, pouco antes de sua execução, o visita na cela. Em ambas, porém, Meursault mostra-se indiferente a Deus, assumindo assim todo peso de sua finitude.

Em relação ao julgamento, é notória a forma como a vida de Meursault adquire maior notoriedade do que o assassinato em si. O fato de não ter chorado no enterro da própria mãe, de iniciar uma relação e ir ao cinema assistir a uma comédia de Fernandel no dia seguinte a sua morte, tem sob o júri maior influência do que o fato de ter matado um homem. A condenação à pena capital coloca Meursault numa situação limite que lembra “O último dia de um condenado à morte” de Vitor Hugo, e da parte final de “O Vermelho e o Negro” de Stendhal. Porém, é essa situação limite, em que o homem deseja continuar vivo, embora esteja cônscio da morte eminente e próxima, que faz com Meursault despoje-se de toda uma vã esperança e assuma a liberdade em sua plenitude, afrontando a ideia de que Deus preenche o vazio.

A revolta de Meursault, no final do texto, é a notação da coragem do personagem que se opõe às convenções sociais e prefere, heroicamente, encarar o absurdo da existência humana. Contraditoriamente, o réu torna-se herói, pois assume as limitações de sua humanidade. Retomando um argumento presente em “A Peste”, Camus, por intermédio de Meursault, destaca o desejo humano de continuar vivo através da humanidade e da memória (lembrando-me muito a perspectiva sustentada pelos antigos gregos sobre a memória e a história, segundo Hannah Arendt), assumindo a beleza da vida, mas também a inexorabilidade da morte. Neste ponto do texto, a morte é encarada como uma experiência existencial – para aquele que está prestes a morrer – e como uma redenção social – pois, o julgamento e condenação do personagem não deixam de ser uma vingança social em relação à indiferença de Meursault.

A morte social de Meursault, narrada durante todo o texto, é, certamente, a pior de todas as mortes, porém, paradoxalmente, é por meio da consciência de sua morte que Meursault percebe o absurdo que é a vida, o que lhe permite exercer a liberdade de assumi-la em sua inteireza.

Texto escrito especialmente para o ciclo do Núcleo Macabéa. Sidnei Ferreira de Vares é doutor em Educação pela Universidade de São Paulo [USP]

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