Um ensaio sobre o desamparo

| Por Rudinei Borges |

Nunca ouviram do louco que acendia uma lanterna em pleno dia e desatava a correr pela praça gritando sem cessar: «Procuro Deus! Procuro Deus!» Mas como havia ali muitos daqueles que não acreditavam em Deus, o seu grito provocou grande riso… O louco saltou no meio deles e trespassou-os com o olhar. «Para onde foi Deus», exclamou, «é o que lhe vou dizer. Matámo-lo… Vós e eu! Somos nós, nós todos, que somos os seus assassinos!… Deus morreu! Deus continua morto… (Nietzsche, A Gaia Ciência, aforismo 125)

“Agruras – ensaio sobre o desamparo” configura espécie de simbiose entre grito e sussurro, mantra que conclama o retorno de certa figura-morta pela qual nutrimos saudade singular, mas sequer sabemos quem é ou o que é. Por ventura, chamamos de pai: Yahweh, aquele que traz a existência de tudo que existe. A peça é um breviário de espectros, ante a terra ceifada, que arriscam seguir rumo ao deserto numa locomotiva tomada por ferrugem: Eva, um vendedor de ossos, um menino ferido e um estrangeiro (Judas) preso a um baú onde supostamente carrega o cadáver do pai morto. E é exatamente esta a inquietação central em “Agruras”: a morte do pai, a morte do sagrado, a morte de Deus, a morte das utopias: a evocação do semblante dos expatriados, desterrados: refugiados numa terra desolada, refugiados em si mesmos. 

“Agruras” é, sobretudo, uma peça-poema (de caráter psicológico) em que a fala é motora da (e a própria) ação cênica, o que instaura uma gagueira poética devedora da obra de Gertrude Stein.  “Agruras” é, sobretudo, uma peça-poema em que o corpo estático (numa invocação de Bernard Maeterlinck) adentra nuanças desesperadoras da miséria humana como impossibilidade de ser no mundo. O ensaio posto em “Agruras” aparece como tentativa de realocar para um campo minado o limiar entre poema e dramaturgia, texto lírico e texto dramático, questão cerne da pesquisa teatral do Núcleo Macabéa.

A agrura e o desamparo “tecidos” em cena remetem à completude daninha da existência humana. Neste sentido, a peça sofre influências inúmeras da obra de Franz Kafka, Samuel Beckett e Ingmar Bergman. E de outros importantes autores como Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, Sartre, Camus, T. S. Eliot, Isaac Babel e Herta Müller. É notória também a influência da fotografia de Henri Cartier-Bresson, Antanas Sutkus, August Sander e Edouard Boubat. E da obra cinematográfica de Béla Tarr e Glauber Rocha.

A pesquisa que resultou na feitura deste ensaio sobre o desamparo iniciou em fins de 2011. O arsenal de livros, filmes, fotografias e obras de artes plásticas foi devorado em 2012, quando concluí a tessitura do texto dramatúrgico e começaram os ensaios. Em 2013, o Núcleo Macabéa realizou o ciclo “Teatro, angústia e liberdade” em vista de dialogar com estudiosos de filosofia da existência. Com isso, vieram também os estudos de introdução ao butoh e de preparação vocal. Todos estes trabalhos foram possíveis graças ao Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) da Prefeitura de São Paulo.

De tudo o que pode ser visto no breu infindo é possível que a palavra P-A-R-T-I-D-A explicite com maior afinco as pretensões desta composição poética da terra ceifada. Nos escombros do mundo (coivara) são tecidas as vozes do desarrimo: a ausência do pai, a morte, a culpa e o sacrifício. A impossibilidade de partir, de reencontrar o deserto metafórico onde supostamente o ser humano encontra alento é a âncora que sustenta a vozearia em “Agruras – ensaio sobre o desamparo”.  

O dramaturgo e poeta Rudinei Borges Rudinei Borges é poeta, dramaturgo e ficcionista. Ator e diretor do Núcleo Macabéa. Autor dos livros “Chão de terra batida” (poesia), “Dentro é lugar longe” (dramaturgia) e “Teatro no ônibus” (pesquisa). Escreveu e dirigiu as peças “Auto de São João” (2003-2005), “Poetas de vidro” (2010), “Chão e silêncio” (2012) e “Agruras – ensaio sobre o desamparo” (2013). Formou-se em Filosofia pelo Centro Universitário Assunção. É mestre em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Integrou cursos de artes cênicas na Secretaria de Cultura de Itaituba, Pará (onde nasceu), no Teatro Escola Macunaíma, na SP Escola de Teatro e na Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT). 

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