Itinerários da atriz Nayara Meneghelli

| Por Nayara Meneghelli |

“Tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos, do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça”. (Cora Coralina)

A brincadeira de criança despertou algo que eu não sabia que teria tanta força. O que antes me daria apenas conhecimento, prazer e convivência com amigos na arte, se tornou meu sonho, minha luta diária, minha paixão. A menina que havia passado por vários desejos de profissões, ainda tão pequena encontrou-se no teatro. Adentrei em um mundo onde não havia mais vontade de sair e sim mergulhar cada vez mais.

Aguras, ensaio sobre o desamparo com dramaturgia e direção de Rudinei BorgesComecei a caminhada com treze anos, através das oficinas culturais de São Bernardo do Campo. Aos catorze, após o término de uma delas, formamos o grupo “Teatro no Meio-Fio”, onde no decorrer dos anos montamos cinco espetáculos. Dentre tais oficinas, fiz não só as de teatro especificamente, mas também de direção teatral, percussão corporal (Barbatuques) e dança contemporânea. Me formei profissionalmente como atriz pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul e lá, fiz também núcleos de pesquisa em Viewpoints, dramaturgia, performance corporal e commedia dell’arte.

Após me formar, participei do Núcleo de Direção Teatral na Escola Livre de Santo André. Aprendi com grandes mestres, na prática e na leitura… conheci velhos amigos que me mostraram ideias e teorias teatrais. Longas conversas com Brecht, Stanislavski, Clarice, Leilah, Lorca, Cora Coralina, Shakespeare, Kusnet, Wilde, Tennesse, Ionesco, Beckett, Plínio, Ana Cristina, Suassuna e tantos outros que me ensinam a cada dúvida que surge e me iluminam sempre que preciso.

Durante essa caminhada aprendi um pouco de cada arte inserida no teatro. A escrita, que faz com que eu coloque sentimentos, agonias, críticas e opiniões no papel. É ela que surge quando a palavra me falta ou não é suficiente para eu me expressar por completo. A música, onde descobri que meu corpo é uma grande e diversificada caixa de percussão e tiro dele todos os sons possíveis, transformando o silêncio. Além do canto, que adoro e procuro continuar a pesquisa dele, inserindo-o sempre que possível na minha arte. A dança, que me faz compreender o meu principal instrumento de trabalho, o corpo. É, a partir dela, que investigo cada movimento e procuro ter consciência de cada um deles, para estar plena em cena. 

A atriz Nayara MeneghelliEntendi que o teatro é um eterno aprendizado, uma eterna busca. Plantamos um pouco a cada dia, semeamos com carinho, querendo sempre colher o melhor fruto possível.

Pude vivenciar ainda mais a prática teatral profissionalmente, quando entrei para a “Cia. du Mirulindu” em 2010, com a peça “Ôxe, Viximaria Oxênte”, que apresentamos até hoje junto com outros projetos e montagens do grupo; para o “O Maravilhoso Escritório Teatral” em 2011, com o espetáculo musical “Sub Pop Ópera dos Mendigos” e para o “Núcleo Macabéa” em 2012, com os movimentos cênicos “Chão e Silêncio” e “Agruras”. 

Foram muitas pesquisas, muitos cursos em todas as épocas, desde menina à mulher. A formação profissional, as vivências, os processos de montagem, os espetáculos, as temporadas, as conquistas e a força para continuar mesmo quando nada parecia que daria certo.

Mas ainda é pouco, é sempre pouco. Quando se ama a arte, se quer sempre mais. Sabemos sempre o mínimo perto do que existe para vivenciar e aprender. Levamos a bagagem que temos em cada nova empreitada, mas há muito o que descobrir. Há muito chão a ser conquistado, muitos olhares a serem trocados, muitas vidas e histórias a serem compartilhadas, muita arte a ser vivida. Acredito que o teatro faça-se a cada instante, ele surge nos lugares mais improváveis e nos impulsiona a criar quando menos esperamos.

Conheci, além da atuação, a incrível arte de orientar, e vejo a cada dia como é prazeroso e gratificante dividir minha arte com crianças que anseiam por trilhar esses e tantos outros caminhos teatrais. Dirigi alguns trabalhos em escolas e hoje dou aula de teatro para crianças e adolescentes. E é a partir daqui que continuo minha caminhada… 

Atriz integrante do Núcleo Macabéa e da Cia. du Mirulindu… Arte-orientadora… Pesquisadora de outros projetos… E com uma inquietação constante, que me impulsiona e me faz ressurgir em cada nova personagem criada, cada vida que se torna minha a partir dali. Ainda acredito no ser humano e em sua sensibilidade, por esse simples motivo o fazer teatral sempre vai valer à pena.

Entrevista com a atriz Nayara Meneghelli

Que trajetos trouxeram você para o teatro? Conte-nos sobre esta memória de inquietação que trouxe você para a interpretação:

Ainda criança, com 13 anos, fiz uma Oficina de Teatro na cidade de São Bernardo do Campo, convidada por um amigo e me encantei. A partir daí fiz uma oficina seguida da outra, sequencialmente, e não quis mais parar. Fiz parte de um grupo no ano seguinte, após a finalização da Oficina de Teatro 2 e com ele participei de diversas peças, em que pude vivenciar ainda cedo, o fazer teatral em grupo e as dores e delícias que o acompanham. Quando já estava no Ensino Médio, ainda fazendo diversos cursos não só de interpretação, não conseguia me imaginar fazendo outra coisa que não o teatro. Era a época de crise dos adolescentes em busca de uma profissão e eu já tinha definido o que queria fazer o onde queria estar. Por mais árduo que fosse o caminho, seguiria a carreira de atriz.

A atriz Nayara Meneghelli na peça "Chão e silêncio" apresentada na comunidade do Boqueirão em 2012
A atriz Nayara Meneghelli na peça “Chão e silêncio” apresentada na comunidade do Boqueirão em 2012

Era perceptível que as coisas ao meu redor me influenciavam e me motivavam de uma maneira diferente. Aprendia diariamente muito mais do que podia imaginar com a arte e ela estava presente em cada detalhe e em cada inquietação pessoal, social, escolar e familiar que pudesse me preencher.

Após os cursos de Interpretação, Teatro Épico, Direção Teatral, Percussão Corporal, Dança Contemporânea, entre outros, optei pela Habilitação Profissional em Ator na Fundação das Artes de São Caetano do Sul. Lá também vivenciei diversas experiências paralelas ao curso, como o Viewpoints, a Dramaturgia, a Commedia Dell’Arte, a Dança – Teatro, entre outras experiências.
Hoje, após a formação profissional, faço parte de alguns grupos teatrais como atriz e pesquisadora e também sou arte-orientadora.

Minha inquietação vem do que vejo, escuto, aprendo, admiro e questiono. A poesia está viva em cada detalhe do meu dia a dia, a cada pulsar mais acelerado, seja por qual motivo for, um acontecimento, situação ou imagem presenciada. Faço teatro também para não explodir e porque acredito que através da arte algo chegue à nossa sociedade.

Como você chegou ao Núcleo Macabéa?

Fui convidada pelo diretor e dramaturgo Rudinei Borges, no início das pesquisas para os processos e andarilhagens de “Chão e Silêncio” e “Agruras”, no começo de 2012.

O que é o Núcleo Macabéa em sua concepção?

O Núcleo Macabéa é um grupo de pesquisa e encenação teatral, que tem como mote a pesquisa da palavra, das angústias e agonias humanas e da memória. Chamamos de andarilhagens nossas trajetórias e vivências, pois é assim que traçamos nossas pesquisas dentro de uma terra outra, de personagens cheios de histórias e memórias, como na Comunidade do Boqueirão, que é onde residimos artisticamente. Além disso, possuímos a construção de uma dramaturgia inédita, por isso que a pesquisa da palavra e a força contida nela são um de nossos rumos principais.

Como foi a sua participação no processo de criação da peça “Agruras – ensaio sobre o desamparo”?

Começamos nossa pesquisa a partir da memória, das histórias de vida dos moradores da Comunidade do Boqueirão. As agruras vividas por cada pessoa até chegar ali, estando naquela terra e sendo despejado dela. Perder tudo e continuar, não ter a certeza do amanhã e persistir. Paralelo à montagem de “Chão e Silêncio” trilhávamos as pesquisas individuais e em grupo. Os filmes, os livros, os quadros, as peças de teatro, as discussões acerca do texto que criava vida e as vivências cênicas pelo centro de São Paulo, em nossos encontros no Jardim da Saúde e na Comunidade do Boqueirão.

No fim do ano, fizemos uma andarilhagem pelas ruas da Comunidade com experimentos de “Agruras” e trouxemos tais sensações para o processo e para a construção de nossas personagens.

Foi um mergulho nas obras de Ingmar Bergman, Samuel Beckett, T.S. Eliot, Sarah Kane, Sartre, Camus, Heidegger, entre muitos outros filósofos, dramaturgos, poetas e pensadores. Pude aprender e explorar lugares jamais antes visitados, compartilhar pensamentos e compreender um pouco sobre as tessituras filosóficas como o existencialismo, o expressionismo, o surrealismo entre várias outras, que habitam não apenas a filosofia, como todo o âmbito artístico.
Após toda a pesquisa teórica, passamos a trazer isso para a ação. E como trazer toda a teoria e tanta riqueza de palavras para o corpo e para a cena? Diversas foram as dificuldades encontradas e percebemos que era necessário preparadores para o corpo e para a voz.
A proposta de pesquisa corporal foi o Butoh, a de voz, foram as partituras vocais acerca do texto já criado. Tínhamos uma carga de pesquisa teórica enorme, a vivência em uma terra de despejo, o texto que é o nosso mote, a busca pela verdade como ele deveria ser dito e as ações a partir da pesquisa do Butoh. Estávamos vendo nascer enfim, “Agruras”. Com diversas dificuldades e aprendizados, com construções e reconstruções, mas com uma somatória de passos árduos que nos levam onde queremos chegar.

Conte-nos sobre o personagem que você interpreta em “Agruras – ensaio sobre o desamparo”:

Aguras, ensaio sobre o desamparo com dramaturgia e direção de Rudinei BorgesInterpreto Eva. A única personagem feminina de “Agruras” e talvez uma das mais intensas que já vivi até hoje. Eva é um dos espectros que ainda sobrevive naquela terra ceifada. Perdeu tudo o que tinha, o que era e o que podia vir a ser um dia. Traz nela a memória familiar de uma mãe, o peso da perda da família e da culpa de atos que ela cometeu durante sua vida presa àquelas terras.

É a imagem de mãe e prostituta, de santa e pecadora. O longo rosário que carrega consigo é acima de tudo um fardo. Ela busca por esse pai que todos os outros também buscam, mas em seu caso possui também uma imagem de marido e a perda dele.

As falas de Eva são esquizofrenias poéticas. Dialoga consigo mesma e tem uma beleza única em cada palavra escrita naqueles textos.

Pude vivenciar a parte feminina de toda a nossa pesquisa. Observando atentamente as mulheres dos filmes assistidos, das peças lidas e das histórias escutadas dentro da Comunidade do Boqueirão. Ver como é perder tudo, encarar o sofrimento, pegar em armas, lutar, não ter seus filhos e maridos ao seu lado, continuar a caminhar ou entregar-se.

Eva tem em si um pouco de cada uma dessas mulheres. Ela continua a pairar naquela terra sem vento. Perpassando pela frieza, tristeza, sensualidade, sarcasmo, decepção, por cada lembrança, cada ligação ao materno e tantos outros sentimentos e sensações que possam criar vida junto aos outros personagens, ou mesmo em sua própria mente.

Quais os caminhos o Núcleo Macabéa deve seguir após a primeira temporada da peça “Agruras – ensaio sobre o desamparo”?

Queremos apresentar a peça “Agruras – ensaio sobre o desamparo” em outros locais, para diversos públicos. A partir daqui precisaremos trilhar para onde desejamos levá-la, como teatros, festivais, editais de circulação e afins. Continuaremos também com nossas pesquisas e andarilhagens, iniciando novos processos, traçando novos rumos e explorando diversas linguagens, com a construção de dramaturgias inéditas. As ideias e as vontades são muitas, é preciso fazê-las acontecer com organização e produção.

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