Itinerários do ator Alexandre Ganico

| Por Alexandre Ganico |

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
– Que os anos não trazem mais!

(Casimiro de Abreu)

Aguras, ensaio sobre o desamparo com dramaturgia e direção de Rudinei BorgesSuas canetas coloridas já não funcionavam mais. Estavam gastas. Cabisbaixo, desmontou e mergulhou cada uma delas num pote de vidro cheio de álcool. As cores, misturadas,  já não faziam tanto sentido. Tinta diferente e cheirosa. Despejou sobre um torrão de terra. A tinta secou. O torrão de terra antes marrom ficou dourada. Pepita de ouro. Alquimia. O menino ficou espantado.

O filho pergunta assustado para o pai. “- Pai, o senhor vai morrer?”. O pai: “- Vou filho, um dia vou morrer, todos nós vamos morrer”. O menino chorou.

Peça de teatro na escola. Subiu num palco de cimento cru. Menino com sua máscara de papelão forrada com papel alumínio. Ele era um soldado alienígena. O som dos raios emitidos pela sua pistola vinham de uma fita K7. A explosão era de verdade: um punhado de pólvora. O menino brincou.

Retira do plástico o disco de vinil do pai. Ajusta a velocidade da vitrola. 33 rpm. Cuidadosamente repousa a agulha de diamante sobre a bolacha preta. Chiados. Música. O menino dança.

O ator Alexandre Ganico na comunidade do Boqueirão durante a apresentação da peça "Chão e silêncio"
O ator Alexandre Ganico na comunidade do Boqueirão durante a apresentação da peça “Chão e silêncio”

Rua Três Rios, bairro do Bom Retiro – São Paulo. Teatro Taib. “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. O menino na plateia. Olhos vidrados. Menino contemplativo.

Um dia o menino adormece. Por muito tempo. Quando abriu os olhos, os dias eram diferentes. Cinzas. O menino quis novamente ficar espantado, chorar, brincar, dançar e contemplar. O menino-eu quis ser artista.

| Entrevista com o ator-oralista Alexandre Ganico |

Que trajetos trouxeram você para o teatro? Conte-nos sobre esta memória de inquietação que trouxe você para a interpretação:

Confesso que fui trazido de maneira súbita e inesperada ao teatro. A arte da interpretação foi revelada a mim através do cinema, arte esta que raptou meu sono durante vários anos madrugada adentro. Adormecido e latente, a vontade de aprender ressurgiu muito tempo depois quando decidi estudar interpretação teatral no Teatro Escola Macunaíma. Conclui o curso em 2012.

Como você chegou ao Núcleo Macabéa?

O dramaturgo e poeta Rudinei Borges foi quem através de um convite possibilitou a minha chegada, confesso inesperada, ao Núcleo Macabéa. Nos conhecemos em 2008, época em que éramos alunos de teatro no Teatro Escola Macunaíma.

O que é o Núcleo Macabéa em sua concepção?

Vejo o Núcleo Macabéa comungar “artistas-migrantes”: abarcar andarilhos que evocam memórias, resgatam o passado, anunciam o presente e têm esperança no futuro.

Como foi a sua participação no processo de criação da peça “Agruras – ensaio sobre o desamparo”?

Foi como ser sugado e se perder num vórtice de palavras e dicções estranhas. Ilusão minha foi querer “entender o texto” através de vias racionais e literais. Enganei-me. A compreensão do discurso evocado pelo dramaturgo penetrou em mim de forma aguda, sensorial, por vezes obtusa, mas sempre de maneira acachapante e sincera. É um processo de descoberta e (des)construção contínuo, sem linha de chegada,  perene.

Conte-nos sobre o personagem que você interpreta em “Agruras – ensaio sobre o desamparo”:

Sou um vendedor: vendo ossos. Vendo aquilo que um dia foi proteção, estrutura e movimento. Vendo aquilo que um dia produziu sangue e abrigou carne. Vendo a morte. Ela resvala em mim todos os dias. Eu a carrego em minhas mãos. Engrenagem gélida. Arma de fogo. Eu sei como é a voz da morte. Ela ecoa pela minha garganta. A minha nunca sedenta garganta brada anunciando a procissão da morte.  Caminho o dia inteiro negociando mortos. Sou um mascate. Sou um moribundo. Sou um vendedor de ossos.

Quais os caminhos o Núcleo Macabéa deve seguir após a primeira temporada da peça “Agruras – ensaio sobre o desamparo”?

Acredito que inicialmente o Núcleo deva se auto organizar e mobilizar seus esforços para se apropriar ainda mais do ofício do teatro. Empenho este que não se encerra apenas na interpretação teatral em si, mas também na pesquisa, na exploração e na experimentação de várias expressões artísticas. Dado este passo inicial, suponho que  a fase seguinte seja tornar a ação do Núcleo mais prolífica em todas as demais esferas que circundam um grupo de teatro: atuação artística, atuação política, atuação social e econômica. 

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