Itinerários do ator Rodrigo Sampaio

| Por Rodrigo Sampaio |

“Também eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande cólera me tivesse limpado do mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por o sentir tão parecido comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o era.” (Albert Camus – O Estrangeiro)

Senti saudades de mim e corri para me buscar. Não encontrei absolutamente nada onde eu estava e refiz o caminho que tinha percorrido até então para tentar recordar onde eu tinha me perdido.

Encontrei-me andando pelo espaço, ansioso pelas tardes de terças-feiras antecedidas de almoços apressados na casa da minha vó. Eu tinha quatorze anos e trocava cartas de amor pelo teatro. Lembrei do acolhimento e do conforto e de como consegui tornar prazerosas e simples todas as minhas obrigações até ali.

Mas então vieram outras obrigações: os parafusos, as porcas, o primeiro salário, a primeira conta corrente, a linha de montagem, os almoços no bandejão, o bater cartão, as greves, as dívidas, as horas extras, os vestibulares, o jornalismo, as contas, os estágios, os estudos, a carreira, os carros que corri atrás, as dicas de informática que escrevi, os jornalistas que atendi, aquilo que desisti, e tudo o mais que não aprendi.

Então eu quis saber mais e fui conhecer um novo lugar onde poderia novamente andar pelo espaço por mais três anos que se passaram depressa. Foram galopes, aulas, textos, autores, ensaios, oficinas, espetáculos, esquetes, estágios, aprendizado, brincadeiras, exercícios, produção, montagens, dificuldades, pés na bunda, e tudo mais que vivi e aprendi. Busquei o teatro por intuição e  ele me disse que sou um ator, e por isso preciso continuar a busca pelo que está perdido dentro de mim.

Entrevista com o ator Rodrigo Sampaio

Que trajetos trouxeram você para o teatro? Conte-nos sobre esta memória de inquietação que trouxe você para a interpretação:

Aguras, ensaio sobre o desamparo com dramaturgia e direção de Rudinei BorgesFoi na adolescência que encontrei no teatro o meu lugar, um espaço onde eu me encaixava e me sentia bem, uma atividade que eu realmente tinha vontade de fazer. Foram duas grandes amigas (irmãs) que me apresentaram ao teatro. Então fui fazer oficinas de iniciação e depois acabei seguindo por um caminho onde o teatro surgia apenas como um hobby. Mas sempre surgia, por exemplo: com 16 anos de idade entrei numa multinacional do grande ABC, a mesma onde meu pai já conta mais de 30 anos de serviço. Fiz teatro ainda dentro dessa empresa no meu primeiro ano de trabalho, quando era aprendiz. Tive aulas semanais de teatro dentro de uma fábrica, como parte da formação de um curso técnico em mecânica. Acho essa experiência tão fora dos padrões! Enfim até montamos “Sonho de uma noite de Verão”,  e apresentamos na reunião de pais. Depois, na faculdade de Jornalismo, por dois semestres pude fazer disciplinas eletivas de formação cidadã. O alunos podiam escolher fazer aulas de capoeira, libras, história do cinema, claro, teatro (evidentemente, a minha escolha) e etc. Gradativamente fui perseguindo o teatro e concluí a faculdade com a resolução de fazê-lo uma atividade mais presente, o meu trabalho. Por isso, em 2010 entrei no curso profissionalizante da Fundação das Artes de São Caetano do Sul no qual me formei em Junho de 2013.

Como você chegou ao Núcleo Macabéa?

Eu conheci o Rudinei Borges, idealizador do Núcleo Macabéa, em um bate papo que a Trupe Sinhá Zózima realizou na Fundação das Artes em São Caetano no ano de 2012. Mantivemos contato e, em 2013 depois que eu me formei, eu o encontrei por acaso no CineSesc (de São Paulo) e ele me convidou para o processo já em andamento da peça Agruras – Ensaio sobre o desamparo.

O que é o Núcleo Macabéa em sua concepção?

Minha concepção do Núcleo Macabéa está ainda em construção, pois acabei de chegar. De todo modo, o Núcleo Macabéa pra mim é um grupo de teatro muito aberto no que diz respeito ao diálogo e a busca pelo fazer teatral destas pessoas é de se admirar. Muito me encanta o projeto anterior ao Agruras, no qual eles fizeram residência na comunidade do Boqueirão, por tudo que essa ação representa artística e socialmente. Foi através dessa iniciativa que o grupo pôde conhecer o Lukas Torres, ator que hoje faz parte do grupo. Um grupo que se desafia a pesquisar e criar uma dramaturgia inédita, merece respeito só pelo simples fato da escolha não representar o caminho mais fácil.  E sobre a andarilhagem ultilizada por esses artistas como mote de criação: é uma experiência que eu ainda não tive e gostaria de ter, andarilhar com os macabeus.

Como foi a sua participação no processo de criação da peça “Agruras – ensaio sobre o desamparo”?

A minha participação começa numa parte bem prática do processo. Muitas questões da encenação já tinham um caminho percorrido e ganhado suas respostas, outras ainda estavam abertas. Como cheguei num estágio mais avançado estudei algumas referências indicadas pelo diretor, como os filmes O Sétimo Selo (1957), de Ingmar Bergman e e O Processo (1962) de Orson Welles, e o livro O Estrangeiro de Albert Camus. Tenho me dedicado na compreensão daquilo que o texto pede, em me apropriar dele, construir o personagem de acordo com o que é preciso. Acho que estou buscando ainda a peça faltante de um quebra cabeças, para que tudo se encaixe perfeitamente  e tenha uma harmonia. Mas a busca segue perserverante e com um novo ânimo a cada dia.

O ator Rodrigo Sampaio na peça “Agruras, ensaio sobre o desamparo” – segunda montagem do Núcleo Macabéa

Conte-nos sobre o personagem que você interpreta em “Agruras – ensaio sobre o desamparo”:

Eu interpreto o Estrangeiro, o Judas.  Uma figura estranha que arrasta o tempo todo pela terra ceifada, amarrada ao seu corpo, uma pesada caixa de madeira onde dentro está o cadáver do Pai. Em sua trajetória, ele cruza com outros personagens: O Menino Ferido, o Vendedor de Ossos e Eva. Seus diálogos com eles revelam aos poucos um passado fragmentado e a sua necessidade de chegar ao deserto.  No entanto, parece que nessa terra ceifada o tempo parou e o Estrangeiro nunca chegará ao seu destino e nem conseguirá se livrar da pesada caixa.

Quais os caminhos o Núcleo Macabéa deve seguir após a primeira temporada da peça “Agruras – ensaio sobre o desamparo”?

Acredito que o Núcleo Macabéa deva, além de procurar emplacar novas temporadas da peça Agruras, para o espetáculo maturar, ir aparando suas arestas, ampliar sua consistência. Sobre um novo processo, imagino que voltar a fazer novas pesquisas de andarilhagem (das quais eu gostaria muito de fazer parte), e seguir por um caminho temático diferente, ainda que poético e, claro, inédito.

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