Núcleo Macabéa

Macabéa, cujo nome lembra o personagem shekespeareano, Macbeth, embora ocupe o extremo oposto de seu trono, de suas artimanhas, é uma espécie de Macbeth tornado migrante, pobre, faminta, tão magra, tão seca, tão longe, enfim, da coroa de qualquer reinado. A personagem do romance  A hora da estrela, de Clarice Lispector, é exatamente a que não pode ser protagonista de nada, transformando-se, mas apropriadamente, numa espécie de retrogonista, no sentido etimológico do termo, uma vez que retém, em si, a memória milenar dos fantasmas expulsos de suas temporalidades existenciais, fazendo-se como retro, a que traz o antes, e gonos, a que incorpora a dor (já que gonos significa antes de tudo dor) desses antes as reapresentando no seu presente de existir. 

É neste sentido árduo de adentrar a arribação irredenta dos andejos que o Núcleo Macabéa propõe-se como grupo brasileiro de estudo teatral com ênfase na tessitura dramatúrgica inédita e no trabalho do ator a partir de pesquisa da palavra poética, da memória e da condição humana. A ideia de andarilhar como mote de criação poético-cênica é o fio que conduz os movimentos que intersectam poesia e teatro. O ator-andarilho, o ator-narrador, o ator-oralista, é – sobretudo – aquele que cria mediatizado pela memória das pessoas, dos lugares e das travessias.

O exílio, a retirância, a migração, o nomadismo e a andaria dos povos movem o Núcleo Macabéa para a composição de uma tecelagem metafórica das travessias – advinda, sobretudo, do encantamento poético. O grupo opta pela poesia, a carne sustenida da palavra, como rumo de narrar a partida e também o retorno, a volta para o lugar donde se veio.

A tríade Poesia | Condição Humana | Memória move o teatro do Núcleo Macabéa para a amplidão dos espaços: casas, vielas e salas de espetáculos ganham o contorno de palco profícuo para as possibilidades múltiplas de encenação.

O Núcleo Macabéa nasceu em fins de 2011 com o processo de criação da peça Chão e Silêncio, encenada em 2012 nas vielas e casas de moradores da comunidade do Boqueirão, localizada na Zona Sul de São Paulo, região do Ipiranga e Cursino. A peça constitui-se tendo como referências reisados, procissões, cantorias e andanças do bando de Lampião. Fincada na terra fértil da cultura popular brasileira, Chão e Silêncio configurou um experimento cênico da poesia em movimento, da procura pelo dizer do poema mediante a andança.   

Em 2013, o grupo partiu para a sala de teatro e encenou a peça Agruras, ensaio sobre o desamparo, criação cênica que configurava espécie de simbiose entre grito e sussurro, mantra que conclamava o retorno de certa figura-morta pela qual se nutria saudade singular, mas que sequer se sabia quem era. Por ventura, chamava-se de pai, Yahweh, aquele que traz a existência de tudo que existe. A peça alçava semelhanças de um breviário de espectros, ante a terra ceifada, que arriscavam seguir rumo ao deserto numa locomotiva tomada por ferrugem.

Em 2014, o grupo retornou à favela do Boqueirão com Fé e Peleja, peça encenada na sala da casa dos moradores, requerendo um ambiente mais intimista para a narração da poesia em prosa. Nesta peça, nas palavras do dramaturgo Rudinei Borges, os andejos se assemelham, se confundem, são partes da mesma andança, da mesma travessia. Dizem feituras do norte adentro, donde vieram. São “dizerdores” que podem assumir vozearias tantas, vozes silentes, vozes da mãe e do menino. Todo o trajeto pode ser dito por um ou mais atores. O importante é que se diga a peleja da vida, a peleja da morte, a peleja do recomeço. Tudo é estirão.

As três primeiras encenações do Núcleo Macabéa foram contempladas pelo Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (Vai) da Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo.

A história oral de vida

A ideia de história oral de vida que norteia a criação poético-cênica do Núcleo Macabéa é perpassada pela concepção de História oral proposta por Meihy & Holanda (2008), entendendo-a como “um conjunto de procedimentos que se iniciam com a elaboração de um projeto e que continuam com o estabelecimento de um grupo de pessoas a serem entrevistadas. O projeto prevê: planejamento da condução das gravações com definição de locais, tempo de duração e demais fatores ambientais; transcrição e estabelecimento de textos; conferência do produto escrito; autorização para o uso; arquivamento e, sempre que possível, a publicação dos resultados que devem, em primeiro lugar, voltar ao grupo que gerou as entrevistas”.

Nessa perspectiva, as entrevistas são elaboradas em diálogo com os entrevistados que deixam de ser “meros informantes” da pesquisa, para tornarem-se colaboradores atuantes e imprescindíveis no projeto.

Nesse caso específico, estamos nos referindo a um gênero de história oral que privilegia a experiência de vida daqueles que narram suas histórias, nas entrevistas buscamos as singularidades das trajetórias pessoais e da visão de mundo de cada colaborador. A esse tipo de história oral, Meihy & Holanda (2008) denominaram de História Oral de vida:

“No caso da história oral de vida, o que a distingue é exatamente a independência dos suportes probatórios. As incertezas, descartabilidade da referenciação exata, garantem às narrativas decorrentes da memória um corpo original e diverso dos documentos convencionais úteis à História. Em particular, a história oral de vida se espraia nas construções narrativas que apenas se inspiram em fatos, mas vão além, admitindo fantasias, delírios, silêncios, omissões e distorções”.