Núcleo Macabéa

Chão e Silêncio (2012), peça de Rudinei Borges, encenada pelo Núcleo Macabéa na Favela do Boqueirão (SP)
Chão e Silêncio (2012), peça de Rudinei Borges, encenada pelo Núcleo Macabéa na Favela do Boqueirão (SP)

TRAJETOS DO NÚCLEO MACABÉA

Macabéa, cujo nome lembra o personagem shekespeareano, Macbeth, embora ocupe o extremo oposto de seu trono, de suas artimanhas, é uma espécie de Macbeth tornado migrante, pobre, faminta, tão magra, tão seca, tão longe, enfim, da coroa de qualquer reinado. A personagem do romance  A hora da estrela, de Clarice Lispector, é exatamente a que não pode ser protagonista de nada, transformando-se, mas apropriadamente, numa espécie de retrogonista, no sentido etimológico do termo, uma vez que retém, em si, a memória milenar dos fantasmas expulsos de suas temporalidades existenciais, fazendo-se como retro, a que traz o antes, e gonos, a que incorpora a dor (já que gonos significa antes de tudo dor) desses antes as reapresentando no seu presente de existir. 

É neste sentido árduo de adentrar a arribação irredenta dos andejos que o Núcleo Macabéa propõe-se como grupo brasileiro de estudo teatral com ênfase na tessitura dramatúrgica inédita e no trabalho do ator a partir de pesquisa da palavra poética, da memória e da condição humana. A ideia de andarilhar como mote de criação poético-cênica é o fio que conduz os movimentos que intersectam poesia e teatro. O ator-andarilho, o ator-narrador, o ator-oralista, é – sobretudo – aquele que cria mediatizado pela memória das pessoas, dos lugares e das travessias.

O exílio, a retirância, a migração, o nomadismo e a andaria dos povos movem o Núcleo Macabéa para a composição de uma tecelagem metafórica das travessias – advinda, sobretudo, do encantamento poético. O grupo opta pela poesia, a carne sustenida da palavra, como rumo de narrar a partida e também o retorno, a volta para o lugar donde se veio.

A tríade Poesia | Condição Humana | Memória move o teatro do Núcleo Macabéa para a amplidão dos espaços: casas, vielas e salas de espetáculos ganham o contorno de palco profícuo para as possibilidades múltiplas de encenação.

Em 2012, a peça CHÃO E SILÊNCIO, com dramaturgia de Rudinei Borges, adentrou as vielas e casas de moradores da Favela do Boqueirão, na zona sul de São Paulo
Em 2012, a peça CHÃO E SILÊNCIO, com dramaturgia de Rudinei Borges, adentrou as vielas e casas de moradores da Favela do Boqueirão, na zona sul de São Paulo

RESIDÊNCIA ARTÍSTICA NA FAVELA DO BOQUEIRÃO/SP

Uma parte da comunidade do Boqueirão foi demolida. Primeiro: foram embora as famílias, porque um documento oficial dizia que a área à beira dum córrego onde não há água, só o precipício, era imprópria para a construção de casas. As famílias, como em algum conto de realismo fantástico latino-americano, sumiram sem que ninguém soubesse ao certo para onde foram. Segundo: demoliram as casas e as marcas das gentes que moravam ali. Espelhos onde as pessoas olhavam o rosto pela manhã, no domingo, foram quebrados. As mesas que restaram nas casas, onde as famílias se reuniam para o jantar, depois de um dia inteiro de árdua labuta, foram arrancadas. Qualquer resquício das pessoas que ali moravam, naquela parte da comunidade, desapareceu. Ficaram no chão cicatrizes em forma de cimento e azulejo, piso de casas, para provar que ali, um dia, foi moradia de muitas famílias. 

Hoje o lugar é um amontoado de barro. Os meninos aproveitam para brincadeiras e soltam pipas quando há sol. Outros se lambuzam no barro quando há chuva. E a maioria olha o amontoado com o rosto tomado de incertezas. Será que toda a comunidade se tornará também um monte de barro amarelado e desaparecerão casas, vielas e a vida toda que ali se construiu? Pensar na comunidade do Boqueirão hoje, e antes, é pensar em incertezas tantas. 

Desde a época do velho rapper Sabotage e das famílias que vieram do nordeste, não se sabe o que será daquele aglomerado de casas que parece incomodar os moradores do bairro Jardim da Saúde, zona sul da cidade de São Paulo. Incerteza pode ser um nome adequado para o que se vive e se sente naquela favela.

A pequena Favela do Boqueirão, onde o Núcleo Macabéa iniciou residência artística em 2011
A pequena Favela do Boqueirão, onde o Núcleo Macabéa iniciou residência artística em 2011

Mas é lá, neste mesmo Boqueirão, que os meninos correm entre vielas molhadas tomadas de fios e casas, todas muito próximas, coladas, por assim dizer. É no Boqueirão que, no domingo, as pessoas põem churrasqueiras para fora de casa e celebram a vida de tanta peleja e trabalho e riem. E a Dona Maria caminha toda arrumada para a igreja. E o Sr. Inácio toca a vida numa mercearia que faz sucesso na comunidade. E outros tantos lutam na Associação de Moradores. E fazem reuniões tantas. E outros tantos dançam com o som que vem dos carros e dos bares. E o povo constrói sua vida. A verdade é que ninguém quer sair do Boqueirão. Todos querem somente o registro de suas casas, ruas com saneamento e um lugar com melhores condições para viver.

Entre a incerteza e a alegria vive a comunidade do Boqueirão, lugar com mais de vinte anos de existência. Mais de duas décadas de luta. Mais de duas décadas de sonhos. E foi nesta comunidade que nasceu um núcleo de teatro. O primeiro grupo de teatro daquela localidade encravada na cidade de São Paulo, o Núcleo Macabéa.

Foi uma reunião corajosa de jovens de lá e de outras paragens. Gente de perto e de longe que encontrou no Boqueirão um espaço, sobretudo, de amizade onde é possível pensar o teatro como manifestação de encontro profícuo entre pessoas. No início desta década, éramos apenas sonhadores [permita-nos agora pensar na terceira pessoa]: queríamos montar um núcleo que partisse da perspectiva de uma dramaturgia própria movida pelos conceitos de história oral de vida, memória, poesia e andarilhagem [migração] e adentrasse, mais adiante, casas e ruas da comunidade como um bando. E adentrasse também outras partes de São Paulo. Um núcleo de pesquisa cênica que fosse da rua ao palco e, em atos que coadunassem com a realidade da comunidade e da cidade, pudesse vislumbrar a peleja e o desamparo humanos. Um teatro de andarilhos e de oralistas. E foi esta a primeira constituição de ideias do núcleo: tecemos um processo de criação batizado de Oficina de Andarilhagem, um processo de criação calcado no movimento da andança com o objetivo de percorrer as vielas da comunidade e da cidade tanto como ensaio [exagiu: tentativa] e como cena.

Foi graças ao Programa de Valorização de Iniciativas Culturais [VAI] da Prefeitura de São Paulo que o Núcleo Macabéa pode realizar os seus primeiros projetos em poesia e artes cênicas, a partir da ideia de andarilhagem e narrativas de vida.

agruras: ensaio sobre o desamparo/núcleo macabéa/dramaturgia e direção de rudinei borges

Experimentos cênicos da peça AGRURAS, ENSAIO SOBRE O DESAMPARO na Favela do Boqueirão (SP), em 2013
Experimentos cênicos da peça AGRURAS, ENSAIO SOBRE O DESAMPARO na Favela do Boqueirão (SP), em 2013

Desde o início, o grupo partiu de uma proposição desafiadora, a realização de uma residência artística na comunidade do Boqueirão que resultasse num processo de criação poético-cênica que envolvesse os moradores. Com o apoio do Programa VAI foi possível esta residência artística. Aos poucos, nossas ações passaram a fazer parte do cotidiano da comunidade e ganharam aceitação dos moradores, quando perceberam que tínhamos um trabalho sério e que a arte também é importante para a vida, em particular uma vida sofrida. Não a arte como paliativo, mas a arte como manifestação de lutas e sonhos.

Os projetos Agora vai: teatro no Boqueirão e Boqueirão: terra de despejo[1] resultaram em criações cênicas com dramaturgias inéditas: a peça Chão e Silêncio [2012], a peça Agruras: ensaio sobre o desamparo [2013] e a peça Fé e Peleja [2014]. A primeira montagem insere-se na perspectiva de um teatro de rua, a partir da ideia de andarilhagem e do poema em movimento. Demos um passo adiante: apresentamos a primeira peça também em casas de moradores da comunidade. Usamos candeeiros para alumiar as casas. É preciso destacar que as peças percorreram todas as ruas e vielas do Boqueirão. E moradores foram visitados em todas as ruas.

Todos os ensaios aconteceram na comunidade. Assim, o grupo enfrentou inicialmente o estranhamento e depois a identificação surpreendente. Indumentárias que recordavam o bando de Lampião e a folias de rei compunham o figurino da peça Chão e silêncio. Parece-nos que aquelas vestimentas, as canções e o texto que falávamos nas vielas levaram a um encontro bonito com o povo do Boqueirão. Lá quase todos têm origem nordestina.

A nossa encenação ganhou respeito e o carinho das pessoas. E a palavra teatro passou a ser considerada no vocabulário da maioria das pessoas. Eles diziam: “São os meninos do teatro”. Era comum ouvir: “Vamos para a porta, pois os meninos do teatro chegaram.” Isto nos animou de tal modo que nosso projeto ganhou corpo e vida. As pessoas espontaneamente nos convidavam para que entrássemos em suas casas. Foi uma conquista.

Em 2013, o Núcleo Macabéa encenou a peça AGRURAS, ENSAIO SOBRE O DESAMPARO
Em 2013, o Núcleo Macabéa encenou a peça AGRURAS, ENSAIO SOBRE O DESAMPARO

A segunda-montagem, [Agruras, ensaio sobre o desamparo – 2013] partiu da ideia de terra de despejo, de terra desolada, das ausências. Foi apresentada numa sala de teatro, mas antes de sua realização toda a pesquisa foi realizada em cortejos pelas ruas da comunidade. Houve neste momento uma ampliação do estudo do texto poético e dramatúrgico. O grupo pode desenvolver uma dramaturgia inédita calcada em estudos sobre dramaturgia contemporânea. A encenação resultou de oficina de preparação corporal em butoh e oficina de preparação vocal. A pesquisa teórica reuniu vários professores numa série de quatro encontros abertos ao público e à comunidade que denominamos Teatro, angústia e liberdade: ciclo de leitura dramática do Núcleo Macabéa [2013]. Depois de todo o processo de criação a peça realizou temporada de apresentações.

Em 2014, o grupo retornou à favela do Boqueirão com Fé e Peleja, peça encenada na sala da casa dos moradores, requerendo um ambiente mais intimista para a narração da poesia em prosa. Nesta peça, nas palavras do dramaturgo Rudinei Borges, os andejos se assemelham, se confundem, são partes da mesma andança, da mesma travessia. Dizem feituras do norte adentro, donde vieram. São “dizerdores” que podem assumir vozearias tantas, vozes silentes, vozes da mãe e do menino. Todo o trajeto pode ser dito por um ou mais atores. O importante é que se diga a peleja da vida, a peleja da morte, a peleja do recomeço. Tudo é estirão.

As três primeiras encenações do Núcleo Macabéa foram contempladas pelo Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (Vai) da Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo.


O ator Edgar Castro na peça DEZUÓ BREVIÁRIO DAS ÁGUAS (2016), com dramaturgia de Rudinei Borges
O ator Edgar Castro na peça DEZUÓ BREVIÁRIO DAS ÁGUAS (2016), com dramaturgia de Rudinei Borges

Em 2015 o Núcleo Macabéa iniciou o processo de montagem da peça Dezuó, breviário das águas, que resulta da inserção do dramaturgo Rudinei Borges nas comunidades ribeirinhas do médio rio Tapajós, no oeste do Pará, na Amazônia brasileira, ameaçadas de desaparecerem com a construção de hidrelétricas. A peça, que estreou em 2016 com extensa temporada, narra a trajetória do menino Dezuó que, após a expulsão de sua vila natal, cresce e se transforma em um andarilho das grandes cidades, por onde passa a perambular desenraizado, mas ciente de seu passado ancestral. A montagem do Núcleo Macabéa convidou o público a mergulhar na história por meio de uma instalação cênica em arena que reproduz a inundação da comunidade e dos sonhos do menino. Com música ao vivo e texto de particular beleza, a montagem foi indicada ao Prêmio Shell 2016 nas categorias cenário [Telumi Hellen] e autor [Rudinei Borges] e ao Prêmio Aplauso Brasil nas categorias direção [Patricia Gifford] e trilha sonora [Juh Vieira]. Em 2017 a peça seguiu circulação por várias comunidades quilombolas, localizadas às margens do Rio Ribeira, no interior do estado de São Paulo.

A obra cênica Epístola.40, carta (des)armada aos atiradores, encenada em 2016, nasce como ação do projeto Tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas – Teatro e História Oral de Vida. Residência artística do Núcleo Macabéa na favela Boqueirão, contemplado pela 27° Edição do Programa de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo. A peça compreende a tentativa de equacionar o que nos chega de uma realidade em franco desmoronamento, de um campo social que trata os pobres a chutes e bordoadas, território que se ergue sobre a negação ao direito mais elementar de viver com alguma dignidade. A fábula de uma família que vaga em constante processo de expulsão, e que mal conseguindo se acocorar numa favela enfrenta mais uma vez o murro da exclusão, nos parece a metáfora mais adequada a um país que se vê repetidamente despejado. Escrita a partir de memórias de moradoras da Favela do Boqueirão, do romance A hora da estrela de Clarice Lispector e do Primeiro Livro de Macabeus, a peça narra a saga de uma família de retirantes nordestinos, da chegada em São Paulo ao despejo da comunidade onde viviam. 

Em 2016, o Núcleo Macabéa encenou a peça EPÍSTOLA.40, com dramaturgia de Rudinei Borges e direção de Edgar Castro
Em 2016, o Núcleo Macabéa encenou a peça EPÍSTOLA.40, com dramaturgia de Rudinei Borges e direção de Edgar Castro

O núcleo Macabéa realizou do dia 4 de novembro a 12 de dezembro de 2016 uma série de 24 apresentações da peça Epístola.40: carta [des]armada aos atiradores. Toda a temporada aconteceu na sede da Cia. Pessoal do Faroreste, Luz do Faroeste, localizada na região central de São Paulo, bairro da Luz, à Rua do Triunfo, n° 301. No dia 26 de novembro de 2016 o Núcleo Macabéa recebeu para assistir a peça cerca de 30 moradores da comunidade do Boqueirão, inclusive as moradoras da comunidade que cederam as suas histórias para a composição da dramaturgia da nova montagem teatral do grupo.

No itinerário de pesquisa cênica do Núcleo Macabéa é importante destacar, sobretudo, a relevância da investidura na criação dramatúrgica inédita e da procura pela encenação do poema. Toda a construção cênica partiu deste anseio de trazer à boca a poesia. Os experimentos cênicos do grupo, mesmo aqueles que não se tornaram peças, foram alicerçados nesta proposição da palavra como meio de poetização e transformação do mundo. Foram movidos por um anseio urgente de inquietação diante da condição humana; a condição dos excluídos, em particular. E pela procura da transformação mediatizada pela poesia.  

Cenário da peça AGRURAS, ENSAIO SOBRE O DESAMPARO, encenada pelo Núcleo Macabéa em 2013
Cenário da peça AGRURAS, ENSAIO SOBRE O DESAMPARO, encenada pelo Núcleo Macabéa em 2013

Também é notório no percurso-caminho do Núcleo Macabéa o anseio de criar movido pela narrativa de vida, pela memória dos sujeitos, pela história oral do povo. O grupo sempre iniciou sua pesquisa ouvindo história de mulheres e homens da comunidade do Boqueirão. Muitas histórias estão registradas, muitas passaram a compor dramaturgia, outras a compor poemas e crônicas. Destes anos de pesquisa temos uma arca, um baú de textos inéditos que precisam chegar às pessoas, à comunidade.

Neste projeto de criação cênica, iniciado em 2011, o Núcleo Macabéa se movimenta com o anseio de reencontrar a palavra narrada pelos moradores da comunidade do Boqueirão. É preciso adentrar agora, com valentia, as nuances que compõem e tecem a história daquela comunidade para compor obras cênicas inéditas que vislumbrem e anunciem o que ali se viveu e se vive – um ato de coragem, ousadia, inquietação artística e comprometimento com a transformação da realidade latente dos brasis profundos.


[1] Estes foram os projetos do Núcleo Macabéa contemplados pelo Programa de Valorização de Iniciativas Culturais [VAI]. As ações dos projetos resultaram em peças encenadas em ruas e casas de moradores da comunidade do Boqueirão, praças e em sala de teatro. 

Cena da peça CHÃO E SILÊNCIO, com dramaturgia de Rudinei Borges, encenada em 2012 nas vielas da Favela do Boqueirão, em São Paulo
Cena da peça CHÃO E SILÊNCIO, com dramaturgia de Rudinei Borges, encenada em 2012 nas vielas da Favela do Boqueirão, em São Paulo


PESQUISA – DRAMATURGIA E HISTÓRIA ORAL 

O projeto de criação cênica a partir de narrativas [história oral], proposta pelo Núcleo Macabéa, insere-se, sobretudo, numa aposta biopolítica de a reapropriação, pelos sujeitos sociais, da legitimidade de seu poder de refletir sobre a construção de sua vida.  

“Nunca se deve subestimar o poder de compartilhamento da experiência humana”, afirma Paul Thompson.[1] Criar dramaturgia e encenação a partir de história oral de vida significa compreender a memória, nas palavras de Michel Pollak,[2] como um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual como coletiva, na medida em que ela é também um fato extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si. Para Ecléa Bosi, recordar não é re-viver, mas re-fazer: é reflexão, compreensão do agora a partir de outrora; é sentimento, reaparição do feito e do ido, não sua mera repetição.[3]

A acepção de história oral de vida que norteia a criação poético-cênica do Núcleo Macabéa é perpassada pela concepção de História oral proposta pelo Professor José Sebe Bom Meihy[4] do Núcleo de Estudos em História Oral [NEHO], entendendo-a como “um conjunto de procedimentos que se iniciam com a elaboração de um projeto e que continuam com o estabelecimento de um grupo de pessoas a serem entrevistadas. O projeto prevê: planejamento da condução das gravações com definição de locais, tempo de duração e demais fatores ambientais; transcrição e estabelecimento de textos; conferência do produto escrito; autorização para o uso; arquivamento e, sempre que possível, a publicação dos resultados que devem, em primeiro lugar, voltar ao grupo que gerou as entrevistas”.

A peça CHÃO E SILÊNCIO, encenada em 2012, configurava um cortejo poético-cênico pelas vielas da Favela do Boqueirão
A peça CHÃO E SILÊNCIO, encenada em 2012, configurava um cortejo poético-cênico pelas vielas da Favela do Boqueirão

Nessa perspectiva as entrevistas são elaboradas em diálogo com os entrevistados que deixam de ser “meros informantes” da pesquisa, para tornarem-se colaboradores atuantes e imprescindíveis no projeto.

Nesse caso específico, nos referimos a um gênero de história oral que privilegia a experiência de vida daqueles que narram suas histórias, nas entrevistas buscamos as singularidades das trajetórias pessoais e da visão de mundo de cada colaborador. A esse tipo de história oral, Meihy denomina de História Oral de vida.

No caso da história oral de vida, o que a distingue é exatamente a independência dos suportes probatórios. As incertezas, descartabilidade da referenciação exata, garantem às narrativas decorrentes da memória um corpo original e diverso dos documentos convencionais úteis à História. Em particular, a história oral de vida se espraia nas construções narrativas que apenas se inspiram em fatos, mas vão além, admitindo fantasias, delírios, silêncios, omissões e distorções.

A história de vida é a narrativa construída a partir do que cada pessoa guarda seletivamente em sua memória e corresponde ao modo como organizamos e traduzimos para o outro aquilo que vivemos e conhecemos. A história de vida não conta apenas o passado de uma pessoa, mas revela muito sobre o seu presente e indica como ela vislumbra o seu futuro. Aí reside, em grande parte, o impacto das histórias. Registrar narrativas de vida não é somente um mecanismo para reunir informações ou criar uma dramaturgia para uma montagem teatral. Conforme Hugo Slim,[5] são necessárias habilidades humana como paciência, humildade, vontade de aprender com os outros e de respeitar seus pontos de vista e valores.

O Núcleo Macabéa, desde a sua fundação, tem alicerçado uma pesquisa continuada que encontra na história oral de vida o norte de sua criação dramatúrgica e cênica. Esta procura movimenta-se a partir da opção ética e estética de criação em diálogo com uma pequena comunidade periférica, a favela do Boqueirão. Neste sentido, o protagonismo dos moradores põe-se diante do protagonismo dos artistas numa confluência dialética. Assim, é preciso sobretudo que as partes se ouçam. Com isso, a pesquisa do grupo tem apontado para um novo conceito, ainda em construção, a ideia de arte-oralista.

O termo oralista vem sendo utilizado amplamente no campo da História, em particular pelos articuladores de projetos em história oral de vida. O oralista é aquele que atua mediante um projeto de pesquisa e tem como objetivo, por meio da narrativa oral, contar e registrar a história de uma pessoa, grupo, rede ou comunidade. Utilizando-se deste contexto o Núcleo Macabéa vem atuando com o objetivo de criar cenicamente movido por histórias orais de vida colhidas por seus artistas ou arte-oralistas. Esta pesquisa tem resultado em criações de dramaturgias inéditas, poemas, experimentos cênicos e montagem de peças teatrais apresentadas em ruas, vielas, praças, casas e em salas de teatro. Desta procura resultaram as peças Chão e Silêncio [2012], Agruras, ensaio sobre o desamparo [2013], Fé e Peleja [2014], Dezuó, breviário das águas e Epístola.40, carta [des]armada aos atiradores.

CHÃO E SILÊNCIO (2012). A encenação de Rudinei Borges inspirou-se num bando para compor poesia em vielas
CHÃO E SILÊNCIO (2012). A encenação de Rudinei Borges inspirou-se num bando para compor poesia em vielas

Em 2008, Beatriz Venancio lançou um livro significativo sobre a intersecção entre teatro e narrativas de vida – uma interessante contribuição para o presente projeto de pesquisa teatral do Núcleo Macabéa. Em Pequenos espetáculos da memória, a autora buscou o equilíbrio entre a atitude objetiva do pesquisador e o cuidado ao lidar com as lembranças, generosamente a ela confiadas por uma trupe de mulheres idosas. Venancio realizou a tarefa de abrir novas possibilidades para o registro de memórias e para o teatro. Realizando a síntese entre o prazer lúdico da invenção e a experiência estética da multiplicidade de formas, o registro cênico dramatúrgico com esta trupe foi inspirado em experiências de teatro na educação e em teatro comunitário. Desconstruindo e reinventando o cotidiano das oficinas, a recriação de temas e situações para os jogos e improvisações realizadas por Venancio fornecem um rico material de reflexão a partir da descrição densa dos procedimentos e dos depoimentos escritos pelas participantes. Para Ingrid Koudela, o processo de rememoração realizado por Venancio com esta trupe de mulheres revela um caminho do jogo ao texto, no qual os arquivos da lembrança foram transformados em formas breves de dramaturgia. Levadas à cena pelas participantes da trupe, a narração teatralizada das lembranças instaurou um diálogo com o público no qual o passado e o presente foram conjugados, rompendo o conceito linear e cronológico de memória. Apontando para a amplitude e complexidade dos estudos de memória e fundamentada em literatura especializada sobre o tema, o trabalho de teatro desenvolvido por Beatriz Venancio demonstrou a íntima relação entre o pessoal e o coletivo. No espetáculo teatral, o mais íntimo se tornou público. O conjunto das memórias imaginadas, sonhadas, suportadas e vividas foram materializadas em três textos, encenadas na forma de fragmentos de intimidades transmutados pelo coro formado pelas atuantes, explica Koudela. Nesta luta contra o muro do esquecimento é preciso ser capaz de lembrar. E esquecer para tornar a existência suportável.

Em verdade, a vida não é completamente pré-construída. Ela é muito complexa para ser construída unicamente pelos outros. Na verdade, novas artes formadoras da existência foram inventadas ao longo do século XX. Foucault as denomina de as artes da existência. Por elas, é preciso entender práticas refletidas e voluntárias pelas quais os homens não somente se fixam regras de conduta, mas buscam transformar a si próprios, a se modificar em seu singular e a fazer de sua vida uma obra que traz certos valores estéticos e respondem a certos critérios de estilo.[6]     

Cena da peça DEZUÓ, BREVIÁRIO DAS ÁGUAS, com dramaturgia de Rudinei Borges, encenada pelo Núcleo Macabéa em 2016
Cena da peça DEZUÓ, BREVIÁRIO DAS ÁGUAS, com dramaturgia de Rudinei Borges, encenada pelo Núcleo Macabéa em 2016

Pelo que sabemos, Foucault não trata exatamente de histórias de vida, salvo por si próprio, para justificar seu arriscado empreendimento, todavia o desafio seria o de saber em que medida o trabalho de pensar a própria história pode livrar a mente do que ela pensa silenciosamente e permite-lhe pensar de outro modo.

Para Gaston Pineau, Foucault nomeia esse trabalho de libertação de “exercício filosófico” e reata, desse modo, com a arte do parto de si, desenvolvida pela bios[7] socrática e retomada individualmente até o século XVIII pelos que mais vigorosamente ultrapassaram fronteiras.

No século XVIII, foi ultrapassado um limite nessa produção autobiográfica, que faz entrar maciçamente a vida de notáveis na história. Essa entrada maciça medeia o exercício filosófico e o romantiza, mas acompanha a ultrapassagem do limiar de modernidade biológica apontada por Foucault. No entanto, neste início de milênio, enfatiza Pineau, a vida que busca entrar na história não é mais somente a dos notáveis, mas a de todos aqueles que, querendo tomar suas vidas na mão, se lançam nesse exercício, reservado até aqui à elite.[8]

É neste sentido que o Núcleo Macabéa encontra na história oral de vida de moradoras e moradores da comunidade do Boqueirão material precioso para o processo de tessitura de dramaturgia inédita, criação de montagem cênica e temporada de apresentações.

Cenário da peça DEZUÓ, BREVIÁRIO DAS ÁGUAS, com dramaturgia de Rudinei Borges, encenada pelo Núcleo Macabéa em 2016
Cenário da peça DEZUÓ, BREVIÁRIO DAS ÁGUAS, com dramaturgia de Rudinei Borges, encenada pelo Núcleo Macabéa em 2016

[1] Verificar THOMPSON, Paul. História falada: memória, rede e mudança social. Coordenadores: Karen Worcman e Jesus Vasquez Pereira. São Paulo: SESC SP: Museu da Pessoa: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006.

[2] Verificar POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos, v. 5, n. 10. Rio de Janeiro, 1992.

[3] Verificar BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 3. Ed. São Paulo: Companhia das letras, 1994.

[4] É professor aposentado do departamento de História da Universidade de São Paulo, onde obteve os títulos de doutor e livre-docente, respectivamente em 1975 e 1981. Ocupou a cadeira de História Ibérica e ministrou diversas disciplinas correlatas, tais como Guerra Civil Espanhola e Modernidade e Conquistas Ultramarinas Portuguesas . Atuou como professor-pesquisador visitante em diversas universidades fora do Brasil, como Standford, Miami, Universidade Agostinho Neto e Columbia. Pioneiro nos estudos de história oral no Brasil, foi um dos idealizadores da Associação Brasileira e História Oral [ABHO], tendo sido diretor regional Sudeste nos biênios de 1994-1996 e 1996-1998. Atualmente é coordenador do Núcleo de Estudos em História Oral da USP [NEHO-USP]. Tem experiência na área de História, com ênfase em História Oral, História Moderna e Contemporânea, atuando principalmente nos seguintes temas: história oral, teoria e metodologia, cultura brasileira, guerra civil espanhola, literatura e movimentos migratórios. Atualmente é Professor do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Letras e Ciências Humanas da UNIGRANRIO. Bolsista de Produtividade em Pesquisa 1A – UNIGRANRIO/FUNADESP. Membro da Comissão Coordenadora do Programa [CCP] do Programa de Pós-Graduação “Humanidades, Direitos e outras Legitimidades” e do Conselho Deliberativo do Diversitas – Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos.

[5] Verificar SLIM, Hugo & THOMPSON, Paul [orgs]. Listening for a Change; oral testimony and development. London, panos Publications, 1993.

[6] Verificar FOUCAULT, M. L’usage des plaisirs: histoire de la sexualité. Paris: Gallimard, 1984.

[7] Vida.

[8] Verificar PINEAU, Gaston. AS histórias de vida em formação: gênese de uma corrente de pesquisa-ação-formação existencial. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 32, n. 2, p. 329-343, maio/ago. 2006.