Obras Cênicas

O Núcleo Macabéa – agrupamento teatral com criação em dramaturgia contemporânea, cujo nome evoca a força de resiliência que há tanto na alusão à última personagem romanesca de Clarice Lispector quanto na relação que tal figura emblemática estabelece com os obstinados macabeus, o antigo povo semítico que defendeu o templo no Monte Sião contra a opressão dos gregos – foi fundado pelo poeta e dramaturgo Rudinei Borges, em fins de 2011, com o processo de criação da peça Chão e Silêncio, encenada em 2012 nas vielas e casas de moradores da Favela do Boqueirão, localizada na Zona Sul de São Paulo, região do Ipiranga, onde o grupo residiu artisticamente por meia década. O grupo também encenou as obras Agruras, ensaio sobre o desamparo [2013], Fé e Peleja [2014], Dezuó, breviário das águas [2016] e Epístola.40: carta (des)armada aos atiradores [2016].

A narrativa oral da migração, do exílio, do holókauston, da retiração em refúgio, do nomadismo e da andaria dos povos move o Núcleo Macabéa para a composição de tecelagem metafórica das travessias – advinda, sobretudo, do encantamento poético. Com o objetivo de adentrar os sentidos paradoxais da arribação irredenta dos andejos, o grupo propõe-se como grupo brasileiro de estudo teatral, com ênfase na tessitura dramatúrgica inédita e no trabalho do arte-oralista, alicerçado na pesquisa da palavra poética, da condição humana e da história oral de vida.


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CHÃO E SILÊNCIO [2012]

Poetas-de-estrada adentram vielas e casas com candeeiros. Evocam a memória dos povos e dos caminhos. Cantam a poesia-viva das terras. Gaitas, maracás e caixas do divino anunciam a chegada dos andarilhos. Chão e Silêncio é um cortejo cênico-poético movido nas andanças do bando de Lampião e em tradições populares brasileiras, como o reisado. A primeira temporada do espetáculo foi realizada em vielas e casas da Favela do Boqueirão.

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dramaturgia, concepção e encenação [rudinei borges]. atuação [alexandre ganico. heitor vallim. joão silher. lukas torres. maria vitória. nayara meneghelli. rudinei borges]. figurino [claudia melo]. direção musical [nayara meneghelli]. realização [núcleo macabéa. cooperativa paulista de teatro. prefeitura de são paulo. programa para a valorização de iniciativas culturais]  


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Foto [Christiane Forcinito/Acervo Núcleo Macabéa]

AGRURAS, ENSAIO SOBRE O DESAMPARO [2013]

Espécie de simbiose entre grito e sussurro, mantra que conclama o retorno de certa figura pela qual nutrimos saudade singular, mas sequer sabemos quem é ou o que é – por ventura, chamamos de pai: Yahweh, aquele que traz a existência de tudo que existe. A peça é um breviário de espectros que arriscam caminhar rumo ao deserto numa locomotiva tomada por ferrugem: Eva, um vendedor de ossos, um menino ferido e um estrangeiro [Judas] preso a uma arca. A morte do pai, a morte do sagrado, a morte de Deus e a morte das utopias – a evocação do semblante dos expatriados, dos desterrados e dos refugiados numa terra desolada – são as inquietações centrais da segunda montagem cênica do Núcleo Macabéa.

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dramaturgia, concepção e encenação [rudinei borges]. atuação [alexandre ganico. lukas torres.  nayara meneghelli. rodrigo sampaio]. figurino [claudia melo]. cenografia, iluminação e sonoplastia [rudinei borges]. preparação vocal [fernando gimenes]. preparação corporal [jimmy wong]. realização [núcleo macabéa. cooperativa paulista de teatro. prefeitura de são paulo. programa para a valorização de iniciativas culturais]  


Aguras, ensaio sobre o desamparo com dramaturgia e direção de Rudinei Borges


FÉ E PELEJA [2014]

Tudo é estirão. Os andejos se assemelham e se confundem. São partes da mesma andança, da mesma travessia. Dizem feituras do norte adentro, donde vieram. São dizerdores que avocam vozearias tantas: vozes silentes, vozes da mãe e vozes do menino. Um espetáculo sobre a peleja da vida e da morte: a peleja do reinicio. Peça encenada na sala e na porta de casas de moradores da Favela do Boqueirão. 

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dramaturgia e concepção [rudinei borges]. encenação e preparação vocal [fernando gimenes]. atores [alexandre ganico e rudinei borges]. figurino e adereços [claudia melo]. realização [núcleo macabéa. cooperativa paulista de teatro. prefeitura de são paulo. programa para a valorização de iniciativas culturais]  


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DEZUÓ, BREVIÁRIO DAS ÁGUAS [2016]

A peça narra a trajetória do menino Dezuó que, após a expulsão de sua vila natal – em virtude da construção de uma usina hidrelétrica no rio Tapajós, oeste do Pará, na Amazônia brasileira –, cresce e se transforma em um andarilho das grandes cidades, por onde passa a perambular desenraizado, mas ciente de seu passado ancestral. A montagem do Núcleo Macabéa convida o público a mergulhar na história por meio de uma instalação cênica em arena que reproduz a inundação da comunidade e dos sonhos do menino. Com música ao vivo e texto de particular beleza, a montagem foi indicada ao Prêmio Shell 2016 nas categorias cenário [Telumi Hellen] e autor [Rudinei Borges] e ao Prêmio Aplauso Brasil nas categorias direção [Patricia Gifford] e trilha sonora [Juh Vieira].

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dramaturgia e idealização [rudinei borges]. encenação [patricia gifford]. atuação [edgar castro]. direção musical/músico em cena [juh vieira]. instalação cenográfica e figurinos [telumi hellen]. assistência de cenografia [andreas guimarães]. adereços [clau carmo]. apoio técnico [thales alves]. iluminação [felipe boquimpani]. preparação corporal e vocal [antonio salvador]. fotografia e vídeo [cacá bernardes e bruna lessa – bruta flor filmes]. direção de produção e assistência de figurinos [isabel soares]. parceria [casa livre] . realização [núcleo macabéa. cooperativa paulista de teatro. prêmio funarte de teatro myriam nuniz 2014. governo federal – cultura]


Epístola.40 - Núcleo Macabéa - 5


EPÍSTOLA.40, CARTA [DES]ARMADA AOS ATIRADORES [2016]

A tentativa de equacionar o que nos chega de uma realidade em franco desmoronamento, de um campo social que trata os pobres a chutes e bordoadas, território que se ergue sobre a negação ao direito mais elementar de viver com alguma dignidade. A fábula de uma família que vaga em constante processo de expulsão, e que mal conseguindo se acocorar numa favela enfrenta mais uma vez o murro da exclusão, nos parece a metáfora mais adequada a um país que se vê repetidamente despejado. Escrita a partir de memórias de moradoras da Favela do Boqueirão, do romance A hora da estrela de Clarice Lispector e do Primeiro Livro de Macabeus, a peça narra a saga de uma família de retirantes nordestinos, da chegada em São Paulo ao despejo da comunidade onde viviam. 

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dramaturgia e coordenação [rudinei borges]. encenação [edgar castro]. atuação [alexandre ganico. andrea aparecida cavinato. daniela evelise. dionízio cosme do apodi. heitor vallim]. cenografia e figurino [telumi hellen]. iluminação [felipe boquimpani]. sonoplastia [dani nega]. produção [fernando gimenes].  programação visual [renan marcondes]. fotografia e vídeo [cacá bernardes. bruna lessa – bruta flor filmes]. assistência de direção e preparação corporal [raoni garcia]. assistência de figurino [claudia melo]. oficina de história oral [marcela boni]. oficina de jogos grupais [rani guerra]. oficina de cultura popular [cleydson catarina]. oficina de teatro e imaginário [andrea cavinato]. palestra clarice lispector [gilberto martins]. revisão de texto [airton uchoa neto]. parceria [cia. pessoal do faroeste] . realização [núcleo macabéa. cooperativa paulista de teatro. prefeitura de são paulo. programa de fomento ao teatro]